Especialistas pedem reabertura das escolas já a partir de março, com novas medidas de proteção. Fique com a opinião do pediatra Paulo Oom.
Ana Margarida Marques

Uma centena de médicos, psicólogos, psiquiatras, pediatras, investigadores, professores e pais assinam uma carta aberta dirigida ao Governo e ao Presidente da República em defesa da urgência de começar a abrir escolas.

A carta defende a reabertura das creches e dos estabelecimentos de educação pré-escolar no início de março, e do ensino básico a partir do início de março, gradualmente, a começar pelos 1º e 2º ciclos (1.º ao 6.º ano).

O médico pediatra Paulo Oom, que é um dos signatários do documento, partilha a sua opinião numa entrevista à revista O Nosso Filho:

“Se tudo for planeado – e isso é possível – não há razão para a partir de março não começar a haver uma abertura gradual das escolas. Abrir sequencialmente, começando pelos mais pequenos, nas creches, no pré-escolar e depois ao longo das idades. É preciso ter as escolas preparadas para receber os alunos, com todas as medidas de proteção e com os rastreios, além de testes rápidos disponíveis para evitar fontes de contágio.”

Se tudo for planeado, não há razão para a partir de março não começar a haver uma abertura gradual das escolas.

Paulo Oom

Pediatra

Controlar a pandemia com as escolas abertas

Segundo a carta, intitulada “Prioridade à Escola”, o encerramento de escolas está associado a uma diminuição dos casos na população e assim facilita o controlo da epidemia, mas não é indispensável para controlar a epidemia, sendo possível fazê-lo mantendo as escolas abertas, com as devidas precauções.

Na opinião de Paulo Oom, no ponto em que estamos “o risco para o problema da aprendizagem e para a educação das crianças tem sido bastante superior ao aumento de casos que possa decorrer se as escolas reabrirem”, desde que sejam tomadas medidas antecipadamente.

Reabertura tem de ser uma decisão planeada

A reabertura das escolas na atual fase de pandemia “tem de ser uma decisão planeada, tem de haver um calendário, tem de haver etapas que se querem cumprir”, defende o pediatra, para tudo seja “definido antes de começar” e para evitar avanços e recuos nas tomadas de decisão, até “porque têm um grande impacto na vida das crianças e principalmente dos pais”.

Paulo Oom explica que as crianças mais pequenas “estão muito mais dependentes da presença física da professora e dos colegas na sua aprendizagem. É claro que os pais são um veículo fundamental para o ensino e para a aprendizagem das crianças – eles são os principais educadores das crianças. Mas se os pais estiverem a trabalhar, têm muito pouca disponibilidade para estar com os seus filhos.”

Crianças mais novas menos afetadas pela covid-19

Em termos de doença o impacto da pandemia é também menor nas crianças mais novas, defende Paulo Oom:

“Sabemos que abaixo dos 12 anos de idade, a probabilidade de as crianças transmitirem a doença umas às outras é mais baixa e a de a criança transmitir a doença aos adultos também. Mesmo com a variante inglesa, continua a não ter nada a ver o contágio de criança para criança ou de criança para adulto, em relação ao que acontece de adulto para adulto ou de adulto para criança. E os estudos feitos com grandes populações de crianças mostram que as crianças também se podem infetar na escola, mas infetam-se mais em casa.”

Impacto na aprendizagem em todos os níveis de ensino

A pandemia está a ter repercussões na aprendizagem em todos os níveis de ensino até ao 12.º ano, previne o pediatra. “Claro que quanto mais pequenas são as crianças, maior é o impacto na aprendizagem.”

Além disso, “a possibilidade de ter acesso a um computador e de ter internet não é igual em todas as famílias”, avança Paulo Oom, frisando a questão de que ensino à distância tem acentuado as desigualdades sociais e económicas.

Máscara obrigatória desde os seis anos

Especialistas deixam ainda o apelo de tornar a máscara obrigatória desde os seis anos fornecida pela escola.

“Sabemos que há crianças que a partir dos seis anos toleram bem a máscara (pelo que observamos nos consultórios, nos hospitais). A ideia é poder oferecer essa possibilidade às crianças a partir do 1.º ciclo, porque nem todas as famílias têm capacidade financeira para garantir que a criança tem uma máscara nova todos os dias”, avança Paulo Oom.