Mário Cordeiro
Pediatra

O dinheiro não cresce nas árvores

Mar 25, 2021 | Mário Cordeiro, Opinião

Tão importante como ensinar a administrar o dinheiro e os bens, é transmitir noções de solidariedade e de partilha que ajudam a formar o caráter.

Quem tem filhos confronta-se frequentemente com um lamento: «Ó Pai… esqueceu-se (outra vez) de me dar a semanada…». Às vezes essas queixas assumem um tom claramente reinvidicativo – pois então… a semanada é um direito adquirido.

Ninguém espera, claro, que a semanada seja um orçamento para a criança administrar a sua vida. As necessidades básicas pressupõem-se providas, mas este dinheiro extra pode servir para a criança aprender a gastar e, principalmente, aprender a gerir, além de lhe desenvolver a autoestima de poder tomar decisões pela sua cabeça e de perceber que «o dinheiro não cresce nas árvores». Os pais poderão ter um papel muito pedagógico, iniciando à criança no jogo do «ganhar-poupar-gastar» e, sobretudo, no equilíbrio que este jogo tem que ter para não descambar para terrenos perigosos – quer o da «sovinice», quer o do se ser «perdulário».

A semanada não pode também criar a falsa ilusão de se viver acima de um nível que é o da família… e o que os outros auferem não deve ser argumento para ajustamentos desapropriados.

Tão importante como ensinar a administrar o dinheiro e os bens, é transmitir noções de solidariedade e de partilha que ajudam a formar o caráter, sobretudo quando o objecto partilhado sai do bolso da própria criança ou jovem, ou seja, quando corresponde a um ato voluntário e responsável e implica um certo sacrifício (se dou o meu deixo de o ter para mim).

É igualmente essencial ensinar as crianças a serem frugais. A frugalidade não é sinónimo de forretice ou de se ser avarento, nem equivale a ausência de poder de compra. É uma coisa diferente: é dizer «não!» ao desperdício, é ser simples e contido, é ter a ambições, sim, mas encontrar nas coisas e nos acontecimentos do quotidiano, na Natureza, nos animais e nas pessoas, momentos agradáveis e reconfortantes, belos e recompensadores, e não ter mais do que se necessita, sobretudo se a razão para ter esse excesso for show-off para impressionar os outros. Posso comprar um carrão? Porventura, mas para que é que eu quero um carrão se ando a pé e me desloco de metro? Posso comprar uma betoneira? Claro que sim, há-as baratas no OLX, mas… para que é que eu quero uma betoneira se não sou pedreiro ou construtor civil? É isto a frugalidade, que temos de ensinar aos nossos filhos e praticá-la com eles, começando pela nossa própria vida. O combate ao desperdício é uma das vertentes essenciais, sem entrar no velho discurso de «já dou o que não presta aos pobrezinhos».

Numa altura em que a esmagadora maioria das crianças nasce e cresce «com tudo», há que relembrar que o dinheiro não cresce nas árvores e que é do trabalho e do esforço dos pais que vem o poder de compra, e não por boa vontade do sr. Multibanco, que vomita notas quando se carrega num botão, ou pelo cartãozinho mágico, que tanto paga um pão como um Ferrari… Assim se aprenderá o futuro, que deves er de autonomia, trabalho, ponderação e frugalidade. A semanada é um bom começo! E o exemplo dos pais, outro ainda maior.