Mário Cordeiro
Pediatra

“A todos, um Bom Natal…”

Dez 4, 2020 | Mário Cordeiro, Opinião | 0 comments

Só fazendo as pazes connosco é que conseguiremos ser melhor para os outros, e encontrar dentro de nós o Pai Natal que deseje, a nós próprios – e aos outros, como a todos os leitores –, um excelente e feliz Natal. E um excelente e feliz 2021. Mesmo em tempos terríveis e incertos de pandemia.

Ao escrever este texto, pensei em abordar o tema que todos os cronistas elegem: o Natal. Mas “como”, ou seja, o que dizer? Boas Festas? Numa altura de pandemia, em que nem sequer sabemos se o Pai Natal está de quarentena e as renas testaram positivo? Contribuir para o atual desânimo coletivo nesta quadra natalícia? Ou «zurzir» no consumismo natalício, como é hábito?

A idade já me permite algumas liberdades e, assim, resolvi declarar que gosto do Natal, e que isso não tem a ver apenas com as excelentes recordações de infância, o ritual da árvore e do presépio com os meus pais, ou a distribuição de presentes depois da Missa do Galo. Até porque, de criança a adulto, muita coisa mudou incluindo a minha relação com a Igreja e com a família.

Todavia, gosto do Natal porque ainda acredito que as pessoas são intrinsecamente boas, e que a Humanidade caminha para estádios de desenvolvimento cada vez melhores, mesmo com a pandemia, ameaças terroristas, birras de Trump, as nuvens negras da extrema-direita ou os crimes dos mais variados tipos. 

Há quem desdenhe do envio de cartões de Natal, por despersonalizados quando remetidos a partir de uma lista de e-mails. Todavia, mesmo que seja escrever um só e fazer send to undisclosed recipient representa um momento em que pensamos em alguém. Uma pessoa é sempre uma importância. Escrever um cartão e enviar pelos CTT, ”à maneira antiga”, a pensar no outro como pessoa singular, e assim rever amizades, afetos e carinhos, nesta época em que não nos podemos ver “ao vivo e a cores”, abraçar, beijar, dar “mimo táctil”, terá provavelmente um significado mais amplo, mas não reduzamos as intenções dos outros a meros estertores de um mundo artificial. 

Compram-se habitualmente muitos presentes. É verdade e caímos sempre na mesma ratoeira, quando, em janeiro de cada ano, prometemos ser frugais. No entanto, oferecer significa que pensamos nas pessoas, porque cada presente leva dois nomes: o de quem dá e o de quem recebe. O que personaliza, duplamente. E mostra que se está “presente”.

Visitamos amigos, telefonamos a outros, enviamos mensagens nas redes sociais. Mesmo que o pensamento seja fugaz, não é bom saber que alguém pensou em nós por um milissegundo? Ainda bem que há luzes nas avenidas e é só é pena que haja pouca música nas ruas, como em algumas cidades europeias, agora remetidas para o isolamento e para os recolheres obrigatórios. 

Está a faltar no nosso país uma injeção de crença, já bastante em baixo mesmo antes da pandemia. É bom acreditar nas pessoas e ensinar às crianças que é bom acreditar nas pessoas, mesmo em tempo de mascarados e de álcoolgel.

Os cartões de Boas Festas, os sorrisos (só com os olhos, que a face anda escondida) dos que se entrecruzam nas ruas, as iluminações, os concertos nas Igrejas (on-line, claro!) e os presentes têm um significado que nenhum bota-abaixo pode derrubar.

Mais do que o Natal, todavia, preocupam-me, sim, aqueles a quem ninguém envia um SMS porque nem têm telemóvel, os que não recebem uma visita porque vegetam num lar (sempre com receio da COVID), ou as pessoas que estão desempregadas, que estão doentes, que são pobres, espezinhadas e humilhadas, e para quem o Natal não existe.

Preocupa-me, sim, que a época natalícia e o Ano Novo não sejam entendidos como um momento ótimo para uma reflexão imensa, que produza melhorias e acertos em nós próprios, e que nos faça uma revalorização de quem somos. Temos amigos e pessoas que nos amam e a quem amamos, mas muito há para fazer e não temos feito tudo o que devíamos.

Preocupa-me que pensemos que o material pode substituir o afetivo e o espiritual. Preocupa-me que deixemos, depois dos momentos quentes do Natal, as coisas andarem com lassidão e indiferença, e que sejamos pouco exigentes e pouco rigorosos com os governos, autarcas, o patrão, colegas, familiares e connosco próprios.

É por isso que, todos os anos, deveríamos dar um presente a nós próprios. Uma coisa simbólica que gostemos de dar e que gostemos de receber. Um presente simples, mas especial, porque temos de nos ver como pessoas especiais. Porque só fazendo as pazes connosco é que conseguiremos ser melhor para os outros, e encontrar dentro de nós o Pai Natal que deseje, a nós próprios – e aos outros, como a todos os leitores –, um excelente e feliz Natal. E um excelente e feliz 2021. Mesmo em tempos terríveis e incertos de pandemia.



Todos os anos, deveríamos dar um presente a nós próprios. Uma coisa simbólica que gostemos de dar e que gostemos de receber. Um presente simples, mas especial, porque temos de nos ver como pessoas especiais.