Isabel Stilwell
Jornalista

Mães e filhas à conversa sobre birras

Fev 25, 2021 | Isabel Stilwell, Opinião

Ser avó é, por vezes, ver sofrer os nossos filhos às mãos dos netos — vítimas de birras, de chantagens de hormonas aos saltos, numa montanhas russa de emoções que deixa qualquer um de rastos.

Ser avó é assistir, também, ao sofrimento de netos às mãos dos pais, que nesta altura do ano com facilidade se escudam por detrás do Pai Natal, fazendo dele braço armado — “Se te portas mal, recebes carvão!”.

São lutas campais que se passam ali mesmo sob o nosso nariz e em que ainda por cima não podemos intervir, sob risco de só agravar a situação.

Mas por muito estranho que pareça, da observação pode resultar alguma coisa de útil. Ajudam-nos a recuar no tempo, de tal maneira nos revemos naquelas cenas, as mães são hologramas de quando éramos nós as mães, com o mesmo deficit de sono, o mesmo cansaço, a culpa por não sermos perfeitas a complicar tudo, e os netos recordam-nos de que ao pé daquilo que fomos, são uns verdadeiros anjinhos.

De facto, ao recuar no tempo percebemos que a experiência acumulada, torna possível entender algumas das armadilhas em que caímos facilmente. E que partilhar estas memórias e sentimentos, mostrando-lhes que não são as primeiras, nem as últimas a sentirem-se assim, pode ser o melhor presente de Natal que temos para lhes oferecer.

Sendo assim, proponho que encontre tempo para uma longa conversa com a sua filha, de preferência em frente da lareira, num dia raro em que as crianças estejam entretidas. Vou fazer o mesmo, com esta agenda de trabalho, que partilho consigo.


1. A culpabilidade coage-nos, muitas vezes, a fazermos e dizermos o que não queremos, não porque as crianças sejam umas manipuladoras maquiavélicas, mas porque sentimos as suas reclamações como uma acusação. E reagimos à defesa.

Ajuda: Conte-lhe como geria a sua relação com o trabalho e os filhos. Pergunte-lhe como sentiu o facto da mãe trabalhar fora de casa. Identifiquem juntas as feridas e as forças que podem ter ficado desse tempo, e como ela as revive agora na relação com os seus próprios filhos.

2. Muitas mães sentem culpa pelo imenso prazer que sentem na sua profissão, somado ao indizível alívio de umas horas longe dos filhos. Têm dificuldade em confessá-lo, porque imaginam que isso faz delas más mães.

Ajuda: Falem de como seu amor ao trabalho interferiu, ou não, na vossa relação, e na qualidade da infância e adolescência que ela teve. Para o bem e para o mal. Discutam as piores “indiretas” ouvidas a pais, sogros e maridos. Percebam juntas de que forma os filhos põem o dedo nessas feridas.

3. Vai uma grande diferença que vai entre aquilo que os outros dizem, e aquilo que ouvimos. Use exemplos de mal entendidos, que acabam por se revelar erros de comunicação. Incendiados por fatores externos, como a escola, os amigos e os namorados.

Ajuda: Conversem e riam de discussões semelhantes entre vocês, que pareciam o presságio do fim do mundo, mas que não foram. Se conseguir acompanhar este exercício de Diários, cartas e álbuns de bebé, tanto melhor. Vai saber-lhe bem a consciência de que fez cenas iguais, mas que com a idade (quase) tudo passou. O amor que sentem uma pela outra, agora que ambas são adultas, é a prova viva de que deve desvalorizar as “cenas” que hoje vive com tanta angústia, e só isso é meio caminho andado para que se resolvam.