Estarão os casais do século XXI preparados para lidar com a imprevisibilidade dos primeiros tempos de vida do bebé? Saiba mais sobre a importância da aceitação da imperfeição para ultrapassar os desafios impostos pela parentalidade.
Ana Margarida Marques

Atualmente a ciência permite‑nos programar gravidezes e partos. Estarão os casais do século XXI preparados para lidar com a imprevisibilidade dos primeiros tempos de vida do bebé? Celeste Malpique, Médica Especialista em Psiquiatria e em Pedopsiquiatria, explica que a sociedade atual tem uma exigência acrescida de qualidade: «Se o casal espera, deseja que o seu bebé corresponda às suas expectativas. Teve tempo para imaginar, para desejar, prepara-se para o receber, em ótimas condições. Ou seja, está menos preparado para a deceção». Após o nascimento, a família reorganiza- se para o receber no seu seio familiar: lá em casa, de dois passam a três, ou a quatro ou mais.

Muito do que foi vivido entre o casal anteriormente não volta a ser como antes, porque se inicia um novo ciclo para todos, individualmente e como um todo. «Há um certo caos transformador das vidas dos casais, mas isso não significa que seja um período negativo. Pelo contrário, faz parte do processo, a mulher tornar-se mãe, o homem tornar-se pai e, quando assim for, as crianças partilharem o seu espaço com irmãos mais novos».

Gestão das expetativas

É importante haver um ajuste das expectativas criadas em torno da nova dinâmica familiar, aconselha a especialista. «Uma expectativa demasiado construída pode criar demasiadas certezas. Um certo grau de incerteza pode preparar melhor para a aceitação do que vier, tem mais potencialidades de transformação e de correção de expectativas demasiado rígidas», avança Celeste Malpique.

É fundamental que os pais e a família tenham a capacidade de aceitar a imperfeição para se adaptarem à criança. Durante a gravidez, na sua fantasia surgem normalmente dois bebés na cabeça dos pais: o bebé “perfeito” que o casal imagina, atribuindo-lhe características, um nome, expressões faciais; e um bebé diminuído, fruto das preocupações e ansiedades dos pais, por exemplo, com problemas de saúde.

Um certo grau de incerteza pode preparar melhor para a aceitação do que vier, tem mais potencialidades de transformação e de correção de expectativas demasiado rígidas.

O nascimento é um momento único, pois «o bebé real é importante na correção de expectativas de um bebé imaginário, corrige a idealização e atenua medos fantasiosos». Daí em diante, o percurso dos pais irá ser no sentido de conhecer o bebé e a si próprios. A forma como a sociedade se organiza hoje em dia cria muitas vezes falsas expectativas.

Hoje lida-se «pior» com o menos perfeito, considera Celeste Malpique. «O bebé é a imagem dos pais, a dita imperfeição é uma ferida narcísica para os pais. O médico ou o psicólogo terão de ajudar os pais, e não apenas a mãe, nessa aceitação de si próprios, condição para aceitação do outro, o filho, o cônjuge», aconselha.

Segundo a especialista, as expectativas elevadas em relação ao bebé, e não só, conduzem ao descontentamento com a realidade, a deceção, sendo que a frustração é menos bem tolerada e pode mesmo acontecer a rejeição do bebé. Esta incapacidade de lidar com o inesperado pode gerar desequilíbrios. Celeste Malpique considera que pode ser mesmo uma causa para a separação de casais, originando acusações recíprocas dentro do casal. Também nas famílias com filhos únicos ou filhos de gravidezes depois dos 40 pode estar aumentada a expectativa de perfeição: «Quanto maior a espera e a expectativa, mais fácil a deceção». Com esta noção, os pais adaptam-se aos desafios com mais disposição e flexibilidade.

Filhos não são posse dos pais

«As necessidades básicas do bebé têm a ver com a disponibilidade afetiva dos pais para o amar e o ajudar a crescer seja ele como for». Neste processo, o suporte da família mais próxima pode ser uma ajuda.

«É importante a disponibilidade dos avós para a criança, que poderá ficar-lhes entregue com mais frequência. Os avós mais novos podem ser uma ajuda vantajosa», frisa a especialista, aumentando «a possibilidade de cada criança crescer de forma saudável e livre, respeitar as diferenças ao longo do desenvolvimento» e assumindo o princípio de que «os filhos não são posse dos pais».

As necessidades básicas do bebé têm a ver com a disponibilidade afetiva dos pais para o amar e o ajudar a crescer seja ele como for.

Oportunidade de crescimento

A mesma opinião é partilhada por Teresa Abreu, psicóloga: «O menos perfeito dispõe os pais perante uma espécie de crise ou desafio que tem tanto de medo e susto como de oportunidade de crescimento no seu novo papel de pais».

Por outro lado, segundo a psicóloga, atualmente sabe-se mais sobre desenvolvimento infantil do que alguma vez aconteceu, o que permite aos pais potencializar as competências e características individuais do bebé, através de uma estimulação adequada.

«Hoje em dia, as crianças, em menor número por família, são, como nunca foram, o centro da atenção e do investimento dos pais e isso, apesar de reforçar as expectativas, também torna os pais mais atentos e recetivos aos sinais do bebé, dando-lhes a possibilidade de colocar ao seu dispor uma gama de afetos e de objetos de exploração e estímulo adequados e emocionalmente motivadores e estimulantes, que as pode tornar mais confiantes para lidar com a incerteza de um mundo em constante mutação», conclui a psicóloga.