Os avós são um eixo fundamental na família, a sua missão é a de promover o apoio afetivo aos filhos e aos netos. Podem assumir a figura de consultores e orientadores, mas só quando solicitados.
Lia Pereira

Com a gravidez nascem novos pais mas também novos avós, observa Marta Parente de Figueiredo, enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica. 

Os avós são “um eixo fundamental na família, mas não devem esquecer-se de que têm um papel multifacetado e muito complexo”, explica o psicólogo clínico Manuel Coutinho. Por um lado, “devem ser chamados a participar no novo grupo familiar, colaborando com filhos e netos, cabendo-lhes transmitir os valores da família de forma a perpetuar a história” da mesma. Mas por outro lado, “são pais de uns e sogros de outros” e, deste modo, “devem remeter-se a um papel do tipo consultor e orientador, mas apenas quando solicitados”. 

Pais são figuras centrais

Os avós têm um papel importante desde o momento do nascimento. Naquele momento, nas primeiras visitas, “nos comentários” sobre o neto – “É parecido com…”. No imaginário dos avós, os sonhos relativamente aos netos são férteis, assegura Daniel Sampaio. “Aqui devemos pedir aos avós que sejam prudentes nos comentários, que ajam com bom senso. O seu papel deve ser sempre de ajuda, pois não tenhamos dúvidas de que os pais são as figuras principais.” Os comentários devem “fornecer o suporte afetivo, que é muito importante nos primeiros tempos”. 

Marta Parente de Figueiredo diz que no caso de se tratar da chegada do primeiro bebé à família, espera-se “que os avós entendam que faz parte do seu papel ensinar os novos pais a serem pais”. Apesar de, por outro lado, ser importante “que percebam claramente a diferença entre os papéis, para além de que isso é apenas uma fase curta e transitória”. 

Suporte afetivo dos avós

Segundo a enfermeira, o que diferencia o papel dos pais do papel dos avós “é que a relação que se cria com os netos deve ser uma relação descomprometida”. Tendo como fonte o livro Psicologia da Gravidez e da Maternidade (Editora Quarteto), explica que a célebre “cumplicidade avós-netos é exemplo desse descomprometimento, traduzido no senso comum pela ideia de que os avós ‘estragam os netos’, ou seja, ‘os pais educam e os avós deseducam’”. Por outro lado, os avós “também não esquecem o provérbio que afirma que ‘quem os faz que os crie’, sentindo que não querem de novo perder a liberdade ganha a partir do momento em que, junto dos próprios filhos, puderam sentir o alívio do peso da parentalidade”. 

Os avós são suporte incondicional, estão lá para brincar, para ouvir as histórias dos netos e para contarem as suas próprias histórias e das respetivas famílias, diz-nos Isabel Carvalho, Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstetrícia. “Têm agora tempo para contar ou fazer com os netos o que não puderam contar ou fazer com os seus filhos.” 

Os avós são suporte incondicional, estão lá para brincar, para ouvir as histórias dos netos e para contarem as suas próprias histórias e das respetivas famílias.

Relação positiva de avós-netos

De acordo com um estudo realizado por um grupo de cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, os meninos crescem mesmo mais felizes e ajustados quando os avós desempenham um papel importante na sua educação. Ann Buchannan, coordenadora do trabalho, referiu que a proximidade é benéfica e que está a ser cada vez mais comum perante o estilo de vida das pessoas e a rotina de trabalho dos jovens pais, mas isto por si só não é suficiente.

“Apenas os avós que participaram na educação é que provocaram um impacto positivo nos seus netos”, explica de forma peremptória, num artigo sobre o assunto na página da BBC online. Os avós foram importantes, ajudando os netos a superar dificuldades do dia a dia, como pequenas batalhas com os colegas, e ajudando-os a planear o futuro, nomeadamente aconselhando-os sobre que universidade escolher. O estudo concluiu que os avós podem ajudar as crianças a superar traumas como o divórcio dos pais. Neste caso, “trazendo conforto aos netos e estabilidade a toda a família”, segundo Eirini Flouri, do Instituto de Educação de Londres, que também participou neste trabalho. 

Relação a dois e ajudas dos avós

As crianças nascem e crescem, e aí os avós têm um papel de igual importância, recorda Daniel Sampaio. “Os jovens casais hoje trabalham muito e precisam muito de ajuda” com os filhos. Não só “a nível material, muitas vezes financeiro, mas também na guarda das crianças, até mesmo para que possam sair de vez em quando juntos”. 

O bebé é muito importante, diz, mas é preciso não esquecer a dimensão do casal. “O investimento nos filhos não pode comprometer a relação do casal enquanto tal.” Aí os avós também podem ajudar, prossegue, proporcionando que o pai e a mãe possam fazer programas a dois de vez em quando. Há que “proporcionar espaço livre para o casal”. Para as mulheres, então, é essencial, uma vez que estão muito centradas nos bebés. “Aqui, os avós devem dizer: ‘somos capazes de tomar conta do bebé, com a nossa experiência, os nossos conhecimentos’”, resume. 

O psicólogo Manuel Coutinho concorda que os avós devem “sempre que possível responder positivamente às necessidades do casal”. Por exemplo, levando os netos à escola ou ficando com eles em casa, quando estão doentes, e também para que os pais possam ter um tempo de qualidade – e romance – para eles próprios. O que não podem, diz, “é deixar de ter vida própria” para socorrer o jovem casal. 

Em suma:

  • O papel dos avós deve ser de ajuda e suporte, pois os pais são as figuras principais. 
  • Os avós devem ser chamados a participar, colaborando com filhos e netos na transmissão dos valores da família. 
  • Os avós devem remeter-se a
    um papel do tipo consultor e orientador, mas apenas quando solicitados. 
  • Os avós são um suporte incon- dicional, estão lá para brincar, para ouvir as histórias dos netos e para contarem as suas próprias histórias e das respe- tivas famílias. 
  • Os avós podem dar o seu apoio ao nível material, financeiro, ou na guarda das crianças,
    até mesmo para que os casais possam fazer coisas juntos de vez em quando. 

Bibliografia consultada: Psicologia da Gravidez e da Maternidade, Maria Cristina Canavarro