A atividade física e o contacto com a natureza tornam as crianças mais felizes e ajudam a diminuir os efeitos negativos resultantes de tempos prolongados nos ecrãs, relata artigo na revista The Lancet Child and Adolescent Health.
Ana Margarida Marques

As famílias devem ajudar a tirar as crianças dos ecrãs e a passar mais tempo em espaços verdes. É a recomendação de um estudo publicado na revista The Lancet Child and Adolescent Health.

“O tempo do ecrã deve ser substituído por tempo verde para otimizar o bem-estar dos nossos filhos”, avança Asad Khan, professor na Universidade de Queensland em Brisbane, Austrália.

O conselho deriva de inquéritos a mais de 577 mil jovens de 11, 13 e 15 anos de idade em 42 países europeus e norte-americanos.

Os rapazes que passaram cerca de 90 minutos por dia nos seus ecrãs – incluindo TV, telemóveis, computadores e jogos de vídeo – e as raparigas que passaram uma hora em aparelhos revelaram ter mais probabilidades de se sentirem tristes com as suas vidas, segundo os inquéritos. E quanto mais tempo no ecrã registavam, menos bem-estar sentiam.

Pelo contrário, as crianças mais ativas demonstraram estar mais felizes. Além disso, a atividade física ajudou a diminuir alguns dos aspectos negativos resultantes de tempos prolongados nos ecrãs.

Apenas 19% dos jovens inquiridos relataram que eram fisicamente ativos todos os dias, e o seu tempo médio de ecrã correspondeu a seis horas por dia.

Aqueles que eram fisicamente menos ativos sentiam-se mais provavelmente irritáveis ou nervosos, além de relatarem problemas de sono, dores de cabeça, de estômago e de costas.

Os resultados sugerem que a atividade física promove o bem-estar mental mesmo quando as crianças também passam muito tempo nos ecrãs.

Meios digitais reduzem tempo gasto em espaços exteriores

Com base nas conclusões do estudo, Asad Khan apela aos pais para darem o exemplo aos seus filhos: “Podemos criar ‘zonas sem tecnologia’, reservar tempos para desligar a ficha, explicar porque estamos a limitar o seu tempo de ecrã, e criar oportunidades para outras atividades, especialmente em ambientes exteriores”.

“Estamos agora a tentar compreender os efeitos de vários tipos de utilização do ecrã no bem-estar mental – se o passivo [por exemplo, televisão] e o mentalmente ativo [por exemplo, jogos electrónicos] têm ligações equivalentes e dependentes da dose com o bem-estar mental dos adolescentes”, explica Khan.

“O meu conselho às famílias é que estabeleçam limites razoáveis no tempo [não académico] dos ecrãs e que trabalhem com adolescentes para programar atividades preferenciais que não envolvam ecrãs”, avança, por sua vez, Sarah Hornack, psicóloga do Children’s National Hospital em Washington, D.C.

“Sabemos que as abordagens familiares ao aumento da atividade física são as mais eficazes”, segundo Hornack. Exemplos disso são caminhadas em família ou simplesmente dançar.

“Quanto mais usamos meios digitais, menos tempo passamos a ser fisicamente ativos e a estar na natureza”, explica também Gene Beresin, director do Clay Center for Young Healthy Minds, no Massachusetts General Hospital em Boston.

O estudo teve lugar antes da pandemia de covid-19 ter desencadeado encerramentos generalizados. O tempo de ecrãs das crianças provavelmente aumentou e a atividade física diminuiu como resultado, acreditam os especialistas.