Investigadores estão a estudar o sistema imunitário dos bebés e os seus mecanismos reguladores, com o intuito de reduzir o risco de alergias, asma e doenças autoimunes mais tarde na vida.
Ana Margarida Marques

Uma equipa do Karolinska Institutet publicou os resultados mais recentes de uma investigação sobre a relação entre o leite materno, as bactérias intestinais benéficas e o desenvolvimento do sistema imunitário. 

O estudo encontra-se disponível na revista Cell.

O objetivo é “um método preventivo para reduzir o risco de alergias, asma e doença autoimune mais tarde na vida, ajudando o sistema imunitário a estabelecer os seus mecanismos reguladores”, refere Petter Brodin, pediatra e investigador do Departamento de Saúde da Mulher e da Criança, Karolinska Institutet. 

Muitas doenças causadas por um sistema imunitário desregulado, tais como alergias, asma e auto-imunidade, podem ser diagnosticadas durante os primeiros meses após o nascimento.

Asma, diabetes tipo 1 e a doença de Crohn está a aumentar em idades precoces

A incidência de doenças autoimunes como a asma, diabetes tipo 1 e a doença de Crohn está a aumentar em crianças e adolescentes em partes do mundo. 

Hoje sabe-se que o risco de desenvolvimento de tais doenças é largamente determinado por episódios nos primeiros meses de vida, por exemplo existe uma correlação entre o uso precoce de antibióticos e um risco mais elevado de asma. 

Sabe-se também que o aleitamento materno protege contra a maioria destas doenças.

Existe uma ligação entre bactérias específicas e protetoras na pele e nas vias respiratórias e intestinal e um risco mais baixo de doenças imunológicas. 

“Contudo, há ainda muito a aprender sobre como estas bactérias formam o sistema imunitário”, descreve Petter Brodin.

Leite materno tem efeito protetor contra maioria de doenças autoimunes

A equipa de investigação estudou como o sistema imunitário neonatal se adapta e é moldado pelas muitas bactérias, vírus, nutrientes e outros fatores ambientais a que o bebé está exposto durante os primeiros meses de vida.

O leite materno é rico em oligossacarídeos do leite humano (HMOs), que os bebés são incapazes de metabolizar por si sós.

A produção destes açúcares complexos está associada à vantagem evolutiva de nutrir bactérias intestinais específicas que desempenham um papel importante no seu sistema imunitário. As bifidobactérias são uma dessas classes bacterianas, descreve o estudo.

O leite humano contém um conjunto diverso e único de oligossacarídeos, coletivamente denominados de oligossacarídeos do leite humano (HMOs, do inglês human milk oligosaccharides).

Os bebés que foram amamentados e receberam bifidobactérias adicionais demonstraram ter níveis intestinais mais elevados das moléculas ILA e Galectina-1. O ILA (ácido indole-3-láctico) é necessário para converter as moléculas de HMO em nutrição; a Galectina-1 é central para a ativação da resposta imunitária a ameaças e ataques.

Segundo os investigadores, a Galectina-1 é um mecanismo recentemente descoberto e crítico para a preservação de bactérias com propriedades benéficas e anti-inflamatórias na flora intestinal.

Risco de eczema atópico, asma e alergias são preocupações de futuro

Os resultados são baseados na observação de 208 bebés amamentados nascidos no Hospital Universitário Karolinska entre 2014 e 2019.

Os investigadores utilizaram métodos inovadores para analisar o sistema imunitário. Por questões éticas, a equipa não realizou biopsias intestinais dos recém-nascidos saudáveis, tendo antes recorrido a pequenas amostras de sangue.

Uma segunda coorte desenvolvida pela Universidade da Califórnia observou os bebés que foram exclusivamente amamentados e aqueles que foram alimentados com fórmulas infantis.

O próximo passo é seguir os bebés que participaram no estudo durante mais tempo para ver quais desenvolvem eczema atópico, asma e alergias.

“Estamos a planear uma nova experiência utilizando a substituição bacteriana para ver se podemos ajudar todos os bebés a ter um início de vida imunológico mais saudável”, refere o professor Brodin.

E continua: “Estamos também a trabalhar com outros investigadores para comparar o desenvolvimento do sistema imunitário em bebés suecos com bebés que crescem na África subsaariana rural, onde a incidência de alergias é muito mais baixa”.