Pais e especialistas apontam que o uso de ecrãs traz vantagens e desvantagens para as crianças. Conheça as boas práticas recomendadas para uma utilização segura e em linha com as orientações mais atuais.
Ana Margarida Marques

Hoje em dia as crianças começam a familiarizar-se desde muito cedo com equipamentos eletrónicos diversos, como a televisão, computador, consolas de jogos, tablet, smartphone.

Nídia Adriano, 34 anos, advogada, e Sérgio Morais, 39 anos, fisioterapeuta, têm um filho com 27 meses, Frederico. O casal acredita que os dispositivos eletrónicos podem ser uma mais-valia quando corretamente utilizados. “O facto de vivermos uma era tecnológica fá-los desde cedo terem contacto com estes equipamentos, que utilizam de uma forma muito hábil e rápida”. Ao tirar o melhor partido dos ecrãs, existem vantagens, “cabendo-nos a nós pais fazê-los utilizar esses equipamentos para fomentar curiosidades e explorar conhecimento.” Por exemplo, “o fácil acesso à música fá-los explorar de forma acessível e autónoma o gosto pela mesma.”

Todavia, os pais de Frederico consideram que também existem efeitos negativos associados aos ecrãs. “A sua utilização excessiva, além da dependência que possa causar”, poderá levantar outras questões, sobretudo do ponto de vista físico, como a “postura errada”, que pode causar “problemas de coluna”. Há ainda que ter atenção que os ecrãs touch “implicam e comprometem o desenvolvimento da motricidade fina”. Ao nível emocional, certos conteúdos podem promover comportamentos mais agressivos e comprometer a “interação social.”

Posto isto, Nídia e Sérgio recorrem a estratégias para minorar o chamado “tempo de ecrã”. “Tentamos dosear a sua utilização.” A estratégia passa por dispensar o uso de equipamentos durante as atividades em família. Procuram que o seu filho se interesse por ajudá-los em “pequenas tarefas” diárias, brincam em casa e no jardim. E concluem: “Não são precisos dispositivos eletrónicos para passarmos momentos de qualidade com o nosso filho”.

Ecrãs trazem “grandes desafios”, dizem pais

Durante o período de confinamento em 2020, a gestão dos equipamentos tornou-se um desafio para muitas famílias. Foi o que aconteceu em casa do Afonso, de 7 anos, que tem um irmão bebé, o Francisco. A experiência é partilhada pelos pais, Jaime Batista, 40 anos, eletromecânico e Sandra Vida, 38 anos, farmacêutica (área regulamentar). A mãe explica que, com o encerramento das escolas, as aulas de ensino à distância exigiram o recurso ao tablet ou computador e à televisão. Surgiu também uma nova realidade, o teletrabalho, que sobrepôs tarefas profissionais e familiares.

Mais do nunca, as regras em casa são claras em relação aos ecrãs, explica Sandra Vida:

“Para ajudar na utilização diária dos equipamentos eletrónicos, utilizamos aplicações de controlo parental em equipamentos como o tablet e consolas, definindo quanto tempo por dia poderão estar ligados. Quanto aos telemóveis, só são utilizados pontualmente com a nossa autorização e na nossa presença.”

“No caso da televisão temos períodos definidos para a sua utilização. Tanto o uso dos equipamentos, como o tempo de utilização, são ajustados ao comportamento e ao cumprimento das regras e tarefas familiares. Chegámos a utilizar um quadro de tarefas e recompensas, em que estava incluído o acesso a equipamentos eletrónicos”.

Estes pais acreditam que o uso incorreto dos equipamentos eletrónicos pode gerar comportamentos agressivos, problemas de saúde, por exemplos visuais, e de hábitos menos saudáveis, como o sedentarismo, além de afetar o desenvolvimento das capacidades sociais e emocionais. Mas há um reverso da medalha: “É inegável que o futuro será revestido de equipamentos eletrónicos, o que tornará essencial as crianças desenvolverem também a capacidade de manipular e utilizar de forma consciente esses equipamentos, além de que a sua utilização passou a ser um fator de integração social.”

Para Sandra Vida, e provavelmente para muitos outros pais de crianças da geração atual, há que saber gerir bem a relação das crianças com os ecrãs: “Esta dualidade de impactos traz-nos grandes desafios como pais, uma vez que deveremos gerir da melhor forma o acesso aos equipamentos eletrónicos, sem conhecermos os efeitos reais a longo prazo.”

Dicas

Recomendações para tempo de ecrã, atividade física e sono durante 24 horas

Bebés até 1 ano

Tempo de ecrã: 0 minutos

Atividade física: pelo menos 30 minutos

Sono: 14-17 horas (0-3 meses) e 12-16 horas (4-11 meses) 

Crianças de 1 a 2 anos

Tempo de ecrã: 0 minutos (até 1 ano) e 60 minutos máx. (até aos 2 anos)

Atividade física: pelo menos 180 minutos

Sono: 11-14 horas

Crianças de 3 a 4 anos

Tempo de ecrã: 60 minutos máx.

Atividade física: pelo menos 180 minutos, dos quais pelo menos 60 minutos de atividade moderada a vigorosa

Sono: 10-13 horas

FONTE: Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age, World Health Organization, 2019

A partir de quando a criança deve utilizar os ecrãs

Inês Nunes Vicente, Pediatra do Neurodesenvolvimento e membro da Direção da Sociedade de Pediatria do Neurodesenvolvimento da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPND-SPP), explica que “particularmente abaixo dos 18 meses, a utilização de equipamentos eletrónicos não traz qualquer mais-valia e por isso, não está, recomendada.”

A especialista esclarece que nesta fase, as crianças estão num período crítico de desenvolvimento de estratégias comunicativas e de linguagem que exigem interação com o adulto, contacto e partilha ocular, leitura das expressões faciais e do contexto e, paralelamente, a procura de soluções não verbais (apontar, gestos) e soluções verbais (primeiras palavras) para se conseguir fazer entender.

“É neste jogo ativo (designado de atenção conjunta) que se constrói a comunicação e o conhecimento. O ecrã impõe uma atividade passiva, empobrecendo estas oportunidades de comunicação, para além que, do ponto de vista cognitivo, nesta idade as crianças têm poucas competências para aproveitar o conhecimento veiculado pelos ecrãs, dado que as suas capacidades atencionais ainda são reduzidas e o seu jogo simbólico e memória imaturos.“

Na faixa etária dos 2 aos 3 anos, um dos grandes desafios, para além da comunicação e linguagem, é a regulação do comportamento, explica Inês Nunes Vicente. Esta é a fase das birras, nas quais a criança aprende a aceitar o “não”, a gerir a frustração, a esperar, a partilhar e a controlar as suas emoções e impulsos.

“Mais tarde, mais madura aprende as regras sociais para cada vez melhor viver em sociedade. Mais uma vez, a interação com o adulto e com os seus pares é fundamental na aquisição destas competências”. E alerta: “A utilização regular ou mesmo abusiva dos dispositivos eletrónicos não só prejudica este percurso, como funciona muitas vezes como um escape, uma fuga ou tampão perante dificuldades na gestão do comportamento da criança.”

As crianças devem ter tempo para brincar

Independentemente da faixa etária, a pediatra da SPND-SPP frisa que a utilização de ecrãs não deve reduzir o tempo da criança para brincar. “Sabemos hoje que ao brincar, seja numa brincadeira livre ou estruturada, a criança está a desenvolver funções cognitivas (criatividade, atenção, memória, flexibilidade cognitiva, persistência na tarefa) muito importantes para o neurodesenvolvimento e desempenho académico e social futuros.”

“O impacto do tempo excessivo despendido com os ecrãs sobre o desenvolvimento da motricidade fina (capacidade para desenhar, pintar, recortar, fazer enfiamentos…) também não deve ser descurado, porque apesar destas competências serem trabalhadas na escola, assistimos hoje a crianças menos ágeis porque têm menos experiências.”

A utilização de ecrãs não deve reduzir o tempo da criança para brincar.

Dispositivos eletrónicos: um potencial por explorar 

Porém, há que olhar de forma positiva para as novas tecnologias, como evidenciam muitos estudos científicos na área. Na opinião da Inês Nunes Vicente, “para além do tempo que a criança utiliza estes dispositivos, interessa o conteúdo do que visualiza”. Segundo a médica, existem programas, aplicações, jogos com conteúdo educativo que os pais devem verificar se é adequado para os seus filhos e que até podem ajudar a “estimular áreas diversas como a matemática, as línguas, a resolução de problemas, quebra-cabeças, permitindo à criança aprender enquanto se diverte”.

Na sua perspetiva, os dispositivos eletrónicos também podem ser soluções úteis para distrair e tranquilizar a criança em situações pontuais como procedimentos médicos (por exemplo, administração de vacinas, exames ou colheitas de sangue) e viagens prolongadas (avião, comboio).

Regras

Uso de ecrãs a partir dos 5 anos, segundo a Academia Americana de Pediatria:

A recomendação é o uso moderado dos ecrãs, que não deve interferir com:

  • Atividade física diária – pelo menos 1 h/dia
  • Sono adequado – 8 a 12 horas, dependendo da idade
  • Estudo, interação social e ambiente familiar, entre outros aspetos a ter em conta

Os ecrãs não devem estar presentes:

  • Às horas de refeição
  • Pelo menos 30 a 60 minutos antes de dormir

 FONTE: Media Use in School-Aged Children and Adolescents, American Academy of Pediatrics, 2016

 

Estratégias para os pais

Em discurso direto, a pediatra Inês Nunes Vicente partilha estratégias para ajudar os pais a fazer um uso adequado dos equipamentos eletrónicos, assim como dicas e truques para “tirar” as crianças do ecrã.

COMO FAZER UM USO ADEQUADO DOS ECRÃS

• Estabeleça regras

Cada criança acaba por ter um dispositivo que gosta e utiliza mais. É fundamental que se criem regras de gestão de utilização, com horários, tempo de utilização em função da idade, locais em casa onde pode usufruir deles vs. espaços em que não são utilizados, gestão dos conteúdos visualizados, de forma a controlar a acessibilidade a estes recursos.

Sobretudo a partir dos 5-6 anos, idade a partir da qual a criança já tem maior capacidade para compreender e executar uma “negociação”, estas regras, se bem estabelecidas e cumpridas, são muito importantes.

• Limite o acesso aos dispositivos

É fundamental regular a acessibilidade da criança aos dispositivos eletrónicos que devem estar desligados quando não utilizados e não devem estar presentes ou facilmente acessíveis em determinadas divisões reservadas para outras tarefas, por exemplo, espaços de refeição, dormir, estudar.

Regule o tempo de utilização e os conteúdos

O período que a criança pode utilizar determinado dispositivo também pode ser regulado, recorrendo a ferramentas de controlo de tempo de utilização.

Os pais devem estar atentos ao tipo de conteúdos a que as crianças têm acesso (ex: violência, comportamentos de risco, sexo, bullying) e à sua capacidade crítica para fazer o julgamento positivo ou negativo do que estão a ver, retirando daí mais-valias ou críticas.

Nesse sentido, é muito importante a supervisão e co-visualização por parte dos pais.

• Os pais devem dar o exemplo

A utilização pelos pais de dispositivos eletrónicos representa outro aspeto fundamental, uma vez que a criança tende a reproduzir os comportamentos dos pais, enquadrando-se no ambiente em que vive. Daí que os pais devem ser orientados no sentido de avaliar a sua própria utilização: evitar que a televisão esteja sempre ligada, mesmo quando não utilizada, evitar estar sempre ao telemóvel a falar ou nas redes sociais, ficar a jogar atrasando os horários das rotinas normais da vida familiar.

Estes comportamentos não só reduzem a disponibilidade para estar com os filhos, permitindo que estes recorram aos ecrãs como escape, como também reduzem a variedade de atividades que pais e filhos podem fazer.

• Desligar os ecrãs às refeições

As refeições são uma experiência social, de reunião da família, de partilha, de conversa, de desabafo. A televisão deve estar desligada ou preferencialmente não existir na divisão em que a família come. Se os dispositivos nunca forem introduzidos no cenário da refeição, a criança não sente falta. Se os pais e restantes cuidadores decidirem que não serão mais utilizados e forem consistentes a cumprir essa resolução, ao fim de alguns dias, a criança deixa de pedir. No que respeita aos restaurantes, existem inúmeras soluções práticas e cómodas para entreter as crianças, por exemplo: lápis e papel, pequenos jogos de viagem, livros, livros de atividades.

Não usar ecrãs antes de ir para a cama

Segundo a Academia Americana de Pediatria, os ecrãs não devem estar presentes às horas de refeição, assim como nos 30 a 60 minutos antes de dormir. Eu recomendaria para não serem utilizados após o jantar. A utilização dos ecrãs antes de ir para a cama poderá dificultar a criança a adormecer, reduzindo o tempo total de sono e qualidade do sono. O sono tem uma função biológica de indiscutível valor no que respeita ao desenvolvimento psicomotor e aprendizagem, nomeadamente de funções tão nobres como a memória e a atenção. Tal como em relação às birras, os ecrãs não devem ser encarados como chupetas ou companhia para adormecer.

• Mensagem sobre as crianças em idade escolar

Em idade escolar, o tempo dispensado em dispositivos eletrónicos, se não for bem gerido, reduz o tempo que a criança dispõe para realizar os trabalhos de casa, estudar ou ler, com possível impacto no seu desempenho académico.

IDEIAS PARA “TIRAR” AS CRIANÇAS DOS ECRÃS

Os pais devem estimular brincadeiras para reduzir o tempo de ecrã.

• Encoraje os jogos tradicionais

A estratégia passa por encontrar alternativas que aos olhos das crianças e dos pais são soluções fáceis, muito eficientes, cómodas e portáteis e que não obrigam à participação dos pais que muitas vezes estão cansados e sobrecarregados. Como pediatra, defendo muito os jogos tradicionais porque podem ser muito completos e, na sua maioria, não exigem grandes recursos.

Estou a falar de jogos simples como, por exemplo, o “jogo das cadeiras” ou “macaquinho do chinês”, em que a criança se diverte e simultaneamente se mexe. Outros exemplos são os jogos de cartas, da memória, das diferenças, sopa de letras, aos jogos de tabuleiro, construções de lego, puzzles.

São jogos lúdicos, que estimulam a atenção, a memória, a estratégia, a persistência na tarefa, a linguagem e, simultaneamente, a regulação emocional e a convivência social porque a criança tem de aprender as regras do jogo, aprender a “saber perder”, esperar pela vez, respeitar os vencidos.

• Estimule as brincadeiras livres

Devem também ser estimuladas as atividades ao ar livre, não necessariamente em parques infantis, mas em espaços verdes em que a própria criança descobre e constrói a sua própria brincadeira. Este brincar “livre” ou “sem regras”, em casa ou lá fora, sem grandes recursos, é muito importante para estimular a criança a arranjar soluções e ser mais criativa.

A criança não tem de estar sempre ocupada, tem de aprender a regular-se e encontrar soluções para períodos de aparente menor atividade ou interação social, sendo criativa, imaginativa e, simultaneamente, resiliente.

Prevenir o excesso de peso e obesidade

A pediatra Inês Nunes Vicente alerta ainda os pais para os riscos de sedentarismo associado ao tempo excessivo de ecrã, que contribui para o excesso de peso e obesidade.

Daniela Rodrigues é investigadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), do Departamento de Ciências da Vida, da Universidade de Coimbra. No CIAS a prevalência de obesidade infantil em Portugal há muito que tem vindo a ser estudada.

”Além dos dados sobre a atividade física, e a dieta das nossas crianças, temos também vindo a tratar os dados sobre o tempo de ecrã, principalmente com a adição dos equipamentos móveis e a possibilidade de multitasking (uso de vários ecrãs ao mesmo tempo). Poucos estudos têm sido publicados sobre este tema, principalmente em crianças desde tenra idade. Com a pandemia de Covid-19 e o esperado aumento de tempo de ecrã, é ainda mais urgente perceber de que forma as crianças usam os ecrãs e qual o impacto que estes poderão ter na sua saúde física e mental”, avança a investigadora.

Com a pandemia de Covid-19 e o esperado aumento de tempo de ecrã, é ainda mais urgente perceber de que forma as crianças usam os ecrãs e qual o impacto que estes poderão ter na sua saúde física e mental.

Daniela Rodrigues

Investigadora, Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) do Departamento de Ciências da Vida, da Universidade de Coimbra

Ecrãs e crianças: o retrato português 

“Através de estudos que desenvolvemos anteriormente no CIAS da Universidade de Coimbra, percebemos que as crianças portuguesas passam demasiado tempo em frente ao ecrã da televisão”, continua Daniela Rodrigues.

A antropóloga refere que dados recolhidos em 2009/10 também indicam que as crianças que veem televisão mais de duas horas por dia têm maior risco de indicadores de doenças cardiovasculares comparadas com crianças que passavam menos de 1h/dia em frente ao ecrã. Segundo a investigadora, estes resultados vão ao encontro de outros realizados a nível internacional.

“Com a dinamização dos equipamentos eletrónicos móveis, o tablet e o smartphone vieram juntar-se aos equipamentos já usados pelas crianças. Contudo, poucos estudos se têm debruçado sobre como os novos equipamentos interagem com os tradicionais (televisão, computador) e de que forma é que eles afetam o tempo de ecrã das crianças. Foi isso que quisemos ver com um novo estudo que foi publicado no início do ano (2020) na revista internacional BMC Public Health.”

O objetivo central da investigação foi observar o tempo de ecrã das crianças portuguesas em diferentes equipamentos (tradicionais e modernos), tendo em conta o sexo, a idade e o estatuto socioeconómico.

A recolha de dados decorreu no ano letivo de 2016/2017 em estabelecimentos de ensino públicos e privados do pré-escolar e do 1.º ciclo, envolvendo 8430 crianças entre os 3 e os 10 anos das regiões do Porto, Coimbra e Lisboa.

Algumas das principais conclusões do estudo nacional:

• O tempo de ecrã diário registado foi elevado em crianças do pré-escolar (3-5 anos; 154 min/dia) e do escolar (6-10 anos; 200.79 min/dia).

• A maior parte das crianças, independentemente do sexo, excede as recomendações de tempo de ecrã, ao passarem mais de 2 horas/dia nesta atividade.

• A televisão é o equipamento mais utilizado pelas crianças portuguesas, mas o tempo despendido com o tablet e o smartphone já é elevado mesmo em crianças com 3 anos de idade.

• O tempo de ecrã aumenta com a idade.

• As crianças provenientes de famílias com menor estatuto socioeconómico passam mais tempo em frente aos ecrãs comparativamente às crianças com maior estatuto socioeconómico.

O mundo exterior através dos ecrãs

Daniela Rodrigues explica que “é esperado que a pandemia tenha agravado o tempo de ecrã das crianças portuguesas (e não só). Com o confinamento, a maior parte das crianças e dos pais conectou-se com o mundo exterior através dos ecrãs. A internet, e mesmo a televisão, revelou-se como um instrumento de aprendizagem, de brincadeira, de entretenimento e de interação social, entrando na rotina diária da maior parte das famílias.”

A investigadora explica que o tempo de ecrã pode estar associado com uma diminuição da atividade física e uma menor quantidade e qualidade do sono, como tem sido demonstrado em estudos anteriores. “Será interessante medir o tempo de ecrã das crianças portuguesas nos próximos meses e comparar com os dados recolhidos anteriormente. Além disso é fundamental perceber como é que a pandemia pode ter agravado as desigualdades sociais e económicas relacionadas com o tempo de ecrã, fazendo com que as crianças de contextos socioeconómicos menos favorecidos tenham um risco acrescido de uma trajetória de saúde menos favorável.”

Lições da pandemia: como gerir os ecrãs?

Em tempos de pandemia, a pediatra Inês Nunes Vicente dá algumas recomendações às famílias. “Não tenho dúvidas de que a pandemia, em concreto o confinamento, ao obrigar a um convívio mantido de 24h com pais em teletrabalho, agravou naturalmente a utilização destes equipamentos”.

Segundo a pediatra “essa realidade foi notória nas consultas via telefone realizadas durante a pandemia e, posteriormente, durante as férias, com o prolongamento de muitos hábitos que se tinham instalado durante o estado de emergência. Alguns pais procuraram, nos meses de verão, ocupar as crianças com atividades lúdicas no exterior, estimulando de novo a socialização, noutros casos não houve essa preocupação ou possibilidade.”

Na opinião de Inês Nunes Vicente, “face à possibilidade de, por períodos, as crianças poderem ter que regressar a casa, mantendo o ensino à distância, é fundamental que os pais estabeleçam rotinas e horários, definindo períodos de trabalho, de brincadeira, de participação nas atividades da casa, de atividade física e também de utilização dos dispositivos eletrónicos.”

A médica explica que “estes aspetos não são apenas importantes na criança mais pequena, mas também na mais velha e adolescentes, em relação aos quais, durante a quarentena assistimos a comportamentos “quase“ compulsivos relativamente ao jogo e a uma importante desregulação dos horários de sono. A experiência da quarentena anterior, que foi inesperada, deve fazer-nos tentar ser mais organizados e eficientes num novo cenário”.

Face à possibilidade de, por períodos, as crianças poderem ter que regressar a casa, mantendo o ensino à distância, é fundamental que os pais estabeleçam rotinas e horários, definindo períodos de trabalho, de brincadeira, de participação nas atividades da casa, de atividade física e também de utilização dos dispositivos eletrónicos.

Inês Nunes Vicente

Pediatra do Neurodesenvolvimento