Aprenda estratégias que contribuem para a adaptação à chegada de um irmão, amenizando os ciúmes e gerando o equilíbrio da família, em especial das crianças.
Texto: Otília Monteiro Fernandes, Investigadora | Edição: Ana Margarida Marques

Todos os pais desejam que os filhos sejam felizes e bem-sucedidos, e que se amem como ir- mãos. Este é um desígnio de fraternidade entre os filhos, só possível se cada um deles tiver um espaço único e diferenciado para o seu desenvolvimento. Porque os pais sabem e percebem isso mal nasce o segundo filho: todos os filhos são diferentes, e a conflitualidade entre eles só acontece quando eles desejam ou são incentivados a conquistar as mesmas coisas. A “fórmula mágica” é deixar que cada um siga o seu caminho, que seja o que é e o que deseja ser, sem comparações, que se aceite e tolere que um seja melhor a matemática e o outro a letras, ou desportista ou artista. Assim, perante o nascimento de mais um filho, os pais devem estar orientados para bem acolher o bebé, sem prejuízo para a criança mais velha, que pode sentir e manifestar ciúmes em relação ao irmão.

Saber gerir as mudanças

Quanto mais o nascimento do irmão implicar mudanças bruscas e significativas no quotidiano da criança mais velha, maiores serão os ciúmes que ela terá em relação ao irmão recém-chegado. Para amenizar os ciúmes, é importante reduzir as ditas mudanças, ou antecipá-las, para que a “criança destronada” não tome o bebé como principal agente causador das mesmas. Por exemplo, se vai ser necessário que a criança mude de quarto ou de horários, convém fazer essas alterações alguns meses antes do nascimento do irmão; ou, se a chega- da do bebé coincide com a ida, pela primeira vez, para a creche, jardim-de-infância ou escola primária – ou com uma qualquer mudança de escola – convém, algum tempo antes da vinda do irmão, ir habituando o mais velho a esse novo contexto extrafamiliar.

O nascimento de mais um filho, os pais devem estar orientados para bem acolher o bebé, sem prejuízo para a criança mais velha, que pode sentir e manifestar ciúmes em relação ao irmão.

A criança mais velha e os pais

Quanto mais intensa for a ligação entre a mãe e o filho mais velho, mais ciúmes este poderá ter do recém-nascido. É que o nascimento de um bebé implica, sempre, uma diminuição da atenção da parte da mãe, naturalmente sobreocuppada com o bebé.

Se já existe uma boa relação com o pai, os ciúmes relativamente ao irmão podem ser menorizados, se aquele, mais liberto dos cuidados a prestar ao recém-nascido, incrementar as suas interações com o filho mais velho, de forma a colmatar o “descuido materno” que, de qualquer forma, é sempre sentido.

Podemos dizer que o facto de a criança dispor de uma forte relação com o pai (antes e após o nascimento do irmão) amortiza o impacto do dito nascimento.

Todos os filhos são diferentes, e a conflitualidade entre eles só acontece quando eles desejam ou são incentivados a conquistar as mesmas coisas.

Dosear a atenção ao bebé

Quanto maior é a atenção – especialmente em comparação com a que devotam ao primogéni- to – mais ciúmes ele sente em relação ao irmão. Porque os ciúmes surgem também ao comparar a atenção recebida com a que o outro recebe e com aquela que ele próprio recebia antes.

Geralmente, após o nascimento do bebé, os pais tendem a aumentar o nível de exigências para com o mais velho. Mas este não ficou “grande” de um dia para o outro, só porque já tem um irmão. Não se lhe pode pedir, brusca- mente, para ajudar a cuidar do bebé, para ter um bom comportamento, para ser um modelo do mais novo e o substituto dos pais na sua ausência. Demasiadas responsabilidades podem fazê-lo crescer demasiado depressa, e o ideal é que o mais velho se aperceba, pau- latinamente, dos ganhos que tem em desempenhar esse papel em relação ao irmão. Um papel que ele não está habituado a ter e que, por isso, por ser novo, pode causar-lhe alguns embaraços ou inseguranças. Os pais devem assegurar que ele se sinta útil e competente nas suas novas tarefas enquanto irmão mais velho.

Valorizar cada criança

Os filhos únicos só serão fraternais – para os outros – se não se sentirem excessivamente únicos: da mãe ou do pai (que estes têm-se também um ao outro, e aos outros fora da família); e os irmãos só serão fraternais – entre si e para os outros – se se sentirem únicos: únicos para os pais, porque são únicos na sua diferença. E é esta a maior responsabilidade dos pais, porque são eles que dão a boa luz para o caminho crescente dos filhos.

Relações fraternas

Não é só durante a infância que se verifica uma influência recíproca e determinante entre os irmãos. Mesmo depois, ao longo de toda a vida, a marca indelével dessas relações passadas parece continuar a fazer-se sentir e a coorientar o destino de cada um. E pensa-se que mesmo que os irmãos se percam cedo nas voltas da vida, as primeiras experiências que com eles tivemos moldam, ainda hoje, a nossa

maneira de agir, de pensar ou de nos considerarmos a nós mesmos. E sobre- tudo, que essas primeiras experiências relacionais na família (e especialmente com os irmãos) determinarão, em grande parte, as nossas relações sociais posteriores, nomeadamente aquelas que estabelecemos com os pares, amigos, companheiros, colegas de trabalho, cônjuges, filhos, entre outros.

MANIFESTAÇÃO DOS CIÚMES POR IDADES

  • Até aos 2-3 anos de idade

    É pouco provável que a criança possa sentir ciúmes face à chegada do irmão.

  •  Entre os 2-3 e os 5-6 anos

    A criança começa a reconhecer-se a si (e aos outros) como individualidade, procura perceber qual é o seu lugar no núcleo familiar. Progressivamente, a criança vai tolerando a frustração da perda do “paraíso parental”. É uma fase em que aprende que ganha autonomia e responsabilidade.

  •  A partir dos 6-7 anos

    A criança habitua-se a tolerar frustrações diversas, inclusive a principal: a perda da exclusividade parental. A sua identidade e formação moral e social estão mais desenvolvidas e interiorizadas, o que faz com que, mesmo que sinta alguns ciúmes, eles sejam menos percetíveis até porque são menos abertamente demonstrados.