Estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto concluiu que apesar de a genética influenciar fortemente os comportamentos alimentares das crianças, o ambiente em que elas se inserem pode moldar a sua predisposição quanto ao apetite.
Texto: Ana Margarida Marques | Shutterstock

Apesar de a genética influenciar certos comportamentos alimentares das crianças, o ambiente em que elas se inserem pode moldar a sua predisposição quanto ao apetite.

A conclusão é de um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP).

Os autores destacam a importância de futuras intervenções de saúde pública relacionadas com boas práticas alimentares, no início da vida, dado que neste período os mais novos são mais permeáveis à influência do ambiente que os rodeia.

Segundo noticia o ISPUP, o estudo envolveu 86 pares de gémeos participantes na coorte Geração XXI – um estudo longitudinal do ISPUP que segue, desde 2005, um conjunto de participantes que nasceram nas maternidades públicas da Área Metropolitana do Porto – com o objetivo de compreender de que forma a genética e o ambiente explicam a variabilidade de comportamentos alimentares nas crianças.

Citando Sarah Warkentin, primeira autora do artigo, coordenado pela investigadora do ISPUP, Andreia Oliveira, responsável pelo laboratório Comportamentos alimentares e obesidade infantildo Laboratório associado para a Investigação Integrativa e Translacional em Saúde Populacional (ITR):

“Decidimos avançar com esta investigação, porque sabemos, através de estudos realizados com gémeos, no Reino Unido, que a genética tem um peso importante na explicação dos diferentes comportamentos alimentares das crianças e que a sua influência parece aumentar com a idade”.

De acordo com as autoras: “Em Portugal, não existia, até à data, nenhum estudo que explicasse qual a contribuição da genética e do ambiente na variação dos comportamentos alimentares das crianças. Por isso, quisemos analisar esta relação numa amostra de gémeos portugueses, em idade escolar”.  

Oito comportamentos alimentares avaliados

O estudo analisou os comportamentos alimentares de 86 pares de gémeos, com dez anos de idade, através de um questionário preenchido pelos pais.

Foram avaliados oito comportamentos relacionados com a alimentação:

  • prazer em comer
  • resposta à comida
  • desejo por bebidas
  • sobre-ingestão emocional (quando se ingere mais alimentos, devido a emoções negativas)
  • resposta à saciedade (por exemplo, deixar comida no prato)
  • ingestão lenta
  • seletividade alimentar (quando se é bastante seletivo quanto ao que se come)
  • sub-ingestão emocional (quando se ingere menos alimentos, devido a emoções negativas)

Aos dez anos, a genética tem uma importante influência em todos os comportamentos alimentares estudados, influenciando comportamentos como o prazer em comer, o desejo por bebidas, a sobre-ingestão emocional e a resposta à saciedade.

A exceção foi a sub-ingestão emocional, que parece ser um comportamento mais influenciado pelo ambiente.

“Apesar de os comportamentos alimentares das crianças serem muito influenciados pela genética, o ambiente em que elas se inserem pode, no entanto, moldar a sua predisposição quanto ao apetite. Assim, mesmo que uma criança tenha uma predisposição genética para ingerir mais alimentos em resposta a estados emocionais negativos ou para comer em excesso, se o ambiente em que vive for promotor de uma alimentação saudável, ela pode ter um peso adequado, apesar da sua predisposição genética para o excesso de peso, por exemplo”, explica Sarah Warkentin.

Em casa e na escola: mais oferta de fruta e hortícolas

O início da vida é o momento ideal para moldar a predisposição genética das crianças quanto ao apetite.

Até porque, mais tarde, com o aumento da autonomia da criança, a genética vai ganhando um peso maior e o ambiente envolvente um peso menor, sendo mais difícil alterar comportamentos alimentares pouco adequados.

“No início da vida, seria importante apostar em intervenções que trabalhem a família como um todo”, indica a investigadora do ISPUP. “Aumentar a disponibilidade de alimentos saudáveis em casa, e utilizar estratégias como a exposição constante a fruta e hortícolas, poderá, por exemplo, ajudar a criança a ser menos seletiva quanto ao que come. Adicionalmente, os pais devem dar o exemplo, praticando também uma alimentação saudável”.

Já fora do ambiente familiar, também as escolas podem dar um contributo, disponibilizando um ambiente promotor de saúde, e ensinando os alunos sobre práticas alimentares adequadas.

“Tudo isto pode moldar a predisposição genética das crianças quanto à maior procura por comida, comportamento que poderá ter como consequência o excesso de peso”.

Sobre a investigação

A investigação publicada na revista Eating and Weight Disorders – Studies on Anorexia, Bulimia and Obesity é também assinada pelos investigadores Milton Severo (ISPUP), Alison Fildes (Universidade de Leeds) e Andreia Oliveira (ISPUP).

O estudo foi financiado pelo FEDER, a partir do Programa Operacional Factores de Competitividade – COMPETE e de financiamento nacional da Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT (Ministério da Educação e Ciência de Portugal), no âmbito dos projetos “Appetite regulation and obesity in childhood: a comprehensive approach towards understanding genetic and behavioural influences” (POCI-01-0145-FEDER-030334; PTDC/SAUEPI/30334/2017) e “Appetite and adiposity—evidence for gene–environment interplay in children” (IF/01350/2015).

Fonte: ISPUP