Papel do pai durante o parto

Saiba mais sobre a presença masculina durante o nascimento e de que forma o pai pode participar ou não no processo.
Lia Pereira
Pela humanização do parto, que passa entre outras coisas pela presença masculina no parto que durante séculos foi vedada, Raquel Robalo, Médica Especialista em Ginecologia e Obstetrícia, recorda que «o parto não é só o momento expulsivo». Ou seja, o momento em que o bebé nasce. Há o antes. E este começa a contar desde que o casal entra na maternidade ou no hospital. Por isso, diz, «se tivermos um pai que queira ausentar-se no momento em que a criança nasce», porque receia impressionar-se, por exemplo, «pode fazê-lo. É lícito, e a grávida também já beneficiou da presença dele até esse momento e da sua ajuda até aí».

O trabalho de parto tem diferentes fases e demora o seu tempo, prossegue a especialista. «Há momentos em que a mãe vai ter dor porque ainda não está em condições de fazer epidural, e vai precisar de apoio». É aí que o marido entra, «por exemplo, para a ajudar a acalmar e concentrar-se de forma a aguentar essa dor e a gerir a ansiedade da espera. Mas, para isso, é preciso que o homem deseje estar perto, pois não podemos passar ao outro extremo que é obrigá-los a estarem presentes», alerta.

Vantagens da presença do pai

As vantagens de abrir as salas de partos aos homens, de facto, são variadíssimas. Pelo menos é o que testemunham diversas investigações científicas. Por exemplo, há estudos que demonstram que «o trabalho de parto acontece mais rapidamente e com menos recursos a analgesia quando os companheiros estão presentes», observa Isabel Carvalho, Enfermeira de Saúde Materna e Obstetrícia, esclarecendo que se encontram enumerados outros benefícios, também de ordem psicológica. «As correntes que defendem que o vínculo do pai com o filho é iniciado in utero, dizem que este é reforçado com a presença dele na sala e quando corta o cordão umbilical.»

Por outro lado, existe uma tese que defende que a presença do homem no bloco de partos e no momento de nascimento da criança, conduz «a uma diminuição do risco de abandono familiar e risco de violência doméstica relativamente à mãe e ao filho».

No que respeita à relação do casal propriamente dita, há teorias que dizem que a intimidade deste fica francamente reforçada. «Tornam-se mais amigos, mais companheiros, mais família. E a sexualidade também fica fortalecida», diz ainda a enfermeira.

As correntes que defendem que o vínculo do pai com o filho é iniciado in utero, dizem que este é reforçado com a presença dele na sala e quando corta o cordão umbilical.
O que fazer na sala de partos

Apesar de o desejo de querer estar na maternidade de com a companheira e ver o filho nascer, alguns homens sentem-se confusos sobre o que deve ser o seu papel depois que cruzam a porta destas unidades de saúde, e particularmente na sala de partos.

Embora se preparem através das aulas, então se são «marinheiros de primeira viagem» o medo de ver sangue pode mesmo agravar o estado de espírito. Tanta emoção e medo, por vezes!

«Há muitas maneiras de estar na sala de parto, mas acima de tudo não convém andar para trás e para a frente, pois dessa forma ‘stressam’ toda a gente, atrapalham a equipa, e vêm o que não devem», diz Isabel Carvalho, referindo-se ao momento de expulsão.

Esclarece que a visão deste cenário, em que a vagina está anatomicamente diferente do normal, com o corte e o sangue, pode impressionar. «Pode ser violento e ficar na memória», assegura. E, no limite, vir a interferir na intimidade do casal.

Para evitar imprevistos, a posição do pai na sala de partos está praticamente convencionada tanto nas maternidades estatais como hospitais particulares.

«É colocado numa posição que não vai atrapalhar, à cabeça da mulher – de onde poderá ajudar melhor a companheira, entre outras coisas a fazer força aquando do período expulsivo – pelo que não vê nem tem contacto com sangue», explica a obstetra Raquel Robalo.

«É preciso não esquecer que a ideia é também ajudar a tranquilizar a mulher e suavizar aquele momento, pelo que também poderá fazer-lhe massagens de relaxamento e orientá-las nos exercícios de respiração», sublinha Isabel Carvalho. No que respeita à posição do homem no bloco, diz que «esta também é a ideal para cortar o cordão umbilical, ver o bebé quando este é colocado sobre a barriga da mãe, e ajudar a mulher a pôr o filho a mamar», o que acontece quase imediatamente.

Conselhos para os homens que desejam estar presentes

A enfermeira Isabel Carvalho deixa alguns conselhos para os homens que desejam estar presentes no parto:

  • Tudo depende do que a companheira espera dele, pelo que o assunto deve ser falado ainda durante a gravidez.
  • Há mulheres que querem apenas a presença do companheiro. Outras querem um pouco mais, uma participação mais ativa da parte deles.
  • Se o casal frequentou um curso de preparação para o parto, o homem pode ser o motor orientador de como elas podem fazer a respiração e fazer força;
  • Pode fazer massagens nas costas e aplicação de calor na zona dos rins de forma a ajudar a diminuir as dores;
  • Pode ficar de mãos dados apenas. Mas ele também pode contar-lhe uma história para a manter distraída.

O parto deve ser um momento pensado e discutido em família

O importante é mesmo que, à semelhança da gravidez, o parto seja um momento pensado e discutido em família.

«É por isso que se diz que a família engravida. São os dois que estão grávidos, são os dois que vão parir», observa, lembrando o caso de alguns homens «que interiorizam de tal forma a gravidez e o parto que acabam por sentir as mesmas coisa que a grávida: as dores e os enjoos». É o síndroma de Couvade, «e tem a ver com a nossa parte psicológica», resume a enfermeira.

De qualquer forma, descansem os homens que ainda não se sentem preparados para esta experiência de entrar na sala de partos, ajudar a mulher e ver o filho nascer. Não serão piores pais por isso, asseguram os especialistas.