Isabel Stilwell
Jornalista

Onde está o Pai pato?

Ago 11, 2021 | Isabel Stilwell, Opinião | 0 comments

O confinamento trouxe os pais (ainda mais) para dentro de casa. Envolveu-os no dia-a-dia dos seus filhos. Nunca pensei estar grata à pandemia fosse pelo que fosse, mas por isto estou. Acredito que o que se ganhou, nunca se irá perder. Porque os filhos não deixam.

De máscara posta, sento-me ao lado do meu neto mais pequenino para lhe ler um livro que já li às irmãs e, antes disso, aos meus três filhos. Estranha a máscara, pergunta-me o que estou a fazer com ela dentro de casa, mas depois conforma-se e encosta-se confortavelmente no meu colo, pedindo-me que comece.

Ganho tempo. Inspiro o cheiro do seu cabelo e gozo o momento que a pandemia nos ensinou a valorizar: nada neste mundo substitui o prazer de sentir o corpo de uma criança contra o nosso, de a envolver nos braços que se fecham à sua frente, o livro nas mãos. Tenho tão viva a memória do colo da minha mãe, onde todos os dias, a seguir ao banho e já de pijama, me aconchegava para a ouvir ler-me.

Impacienta-se. E começo a contar a história.

— Era uma vez uma mãe pata que foi com os seus patinhos….

Ele olha para a ilustração e interrompe-me:

— E o pai?

“O pai?”, pergunto, surpreendida. Nunca me perguntei onde estava o pai, nunca as irmãs me perguntaram onde estava o pato, nem os meus filhos.

— Se calhar está na página a seguir, respondi.

Mas não. Na página a seguir estava uma porquinha com os seus porquinhos.

E na seguinte, os animais da quinta a brincar.

E na outra, depois dessa, uma mãe ratinho, com os seus bebés ratinhos.

— E o pai dos ratinhos, voltou a perguntar.

Saiu-me uma resposta que me envergonha, mas que revela em absoluto as gerações que nos separam. Disse: “O pai está a trabalhar”.

Era a resposta que esperava qualquer criança do meu tempo, e mesmo do tempo dos meus filhos, mas este mini Eduardinho, de três anos, não ficou minimamente conformado, procurando com redobrada atenção o pai pato, o pai porquinho, o pai ratinho. Para ele o pai não é alguém absolutamente presente no seu dia-a-dia, e desde que há mais de um ano (um terço da sua vida), começaram os confinamentos e o teletrabalho, mais presente ainda.

Nessa noite, no intervalo do noticiário, vi um anúncio a uma pomada protagonizada por um pai, um pai novo e giro que mudava a fralda ao seu bebé, sem os protestos do “Faço tudo o que quiseres, mas não me obrigues a mudar-lhe a fralda” que tantas vezes escutei, e tive a certeza de que os pais vieram para ficar, e que esta pandemia acelerou essa mudança. E fiquei contente.

Mas os pais só podem ser melhores pais, se as mães os deixarem. E nós mães, é preciso dizê-lo, temos dificuldade em abrir mão dos nossos filhos. Muitas vezes queixamo-nos de que eles fazem pouco ou nada, mas na realidade procuramos mais quem execute as nossas instruções, do que pais realmente autónomos, que fazem à sua maneira. Mas a violência destes confinamentos que agora vivemos e que nos prendem em casa, num esforço (ainda mais) extraordinário de gestão dos filhos, da escola virtual dos filhos, e das exigências da profissão, criou essa oportunidade. E quando os pais descobrem a relação íntima e profunda com os filhos, nunca mais aceitam voltar a ter um papel secundário nas suas vidas. Nem os filhos o permitem — nunca se cansarão de perguntar “Onde está o pai pato?”.