Isabel Stilwell
Jornalista

O poder da conversa

Fev 25, 2021 | Isabel Stilwell, Opinião | 0 comments

Eu e a Marta falamos animadamente, sempre num sussurro, sobre “decoração de interiores”, uma conversa improvável para uma avó e uma neta que acabou de fazer três anos, mas que apetece gravar, para nunca se perder.

A Marta sobe para a minha cama e faz-me sinal para que não fale alto, porque as manas ainda estão a dormir. Enrosca-se ao meu lado, e baixinho, começa a conversar sobre a decoração do quarto, iluminado pela luz que entra pelas frinchas das portadas antigas que fecham mal. Comenta a cor das paredes e do vão das janelas, e diz que gosta da palhinha no tecto, mas não gosta daquele quadro pendurado na parede, tudo com um detalhe que me espanta. Falamos animadamente, sempre num sussurro, sobre “decoração de interiores”, uma conversa improvável para uma avó e uma neta que acabou de fazer três anos, mas que apetece gravar, para nunca se perder.

Dias depois tropecei num artigo sobre o “The 30 Million Word Gap”, um mega estudo que pelo início do século XXI concluiu

que aos 4 anos as crianças originárias de meios socioeconómicos baixos são expostas a menos 30 milhões de palavras do que aquelas que provém de meios mais favorecidos. Iniciado pelos psicólogos Betty Hart e Tood Risley, o estudo implicou acompanhar mensalmente crianças a partir dos sete meses e até aos três anos,  verificando que os mais pobres entravam no pré-escolar com cerca de metade do vocabulário dos outros.

O alerta estava dado: da mesma maneira que a alimentação determina o desenvolvimento físico, a “nutrição da linguagem”  joga um papel fundamental, ao ponto de pesar mais no sucesso académico do que a escola que se frequenta. Ou seja, combater a desigualdade e o insucesso começa bem mais cedo do que se imaginava.

Mais recentemente uma equipa de neurocientistas do MIT voltou ao tema, com a vantagem de lhe associar a possibilidade de “fotografar” o cérebro(fMRI) enquanto as crianças ouviam histórias ou conversavam. Já em 2018 anunciaram que a prova dos nove estava feita, confirmando que a conversa que temos em casa com os nossos filhos e netos está diretamente associada ao desenvolvimento do cérebro infantil. O investigador principal conclui: “É quase mágico como a conversa influencia o crescimento biológico do cérebro”.

Mas avançaram com uma outra informação revolucionária: não se trata de lhes encher uma mochila de palavras, quanto mais “caras” melhor, como muita gente imaginou após os resultados do primeiro  estudo, mas de exercitar a arte de conversar. Conversa entendida como uma troca, o ping-pong de falar à vez seja sobre o que for, que obriga a cabeça a mexer por dentro, desenvolvendo a capacidade de raciocínio e a argumentação.

E é aqui que nós, os avós, entramos. Não só porque temos, regra geral, mais tempo disponível e menos necessidade de empregar o refrão do “Despacha-te, que estamos atrasados”,  mas também porque estamos numa fase em que gostamos de contar as nossas histórias e de ouvir as deles.  Ao devolverem-nos um mundo que tantas vezes deixámos de ver, espicaçam-nos genuinamente a curiosidade, e damos por nós a pedir-lhes que nos ensinem de novo as tabuadas ou nos expliquem porque é que os aviões não caem.

Além do mais, é uma daquelas situações em que todos ficam a ganhar, porque o exercício também nos acorda os neurónios, que agradecem desafios mais interessantes do que as palavras cruzadas.