Mário Cordeiro
Pediatra

Mentir

Jan 28, 2021 | Mário Cordeiro, Opinião | 0 comments

Será que as crianças mentem? Será que seres supostamente tão inocentes e ingénuos têm a habilidade, o engenho e a premeditação suficientes para mentir? A pergunta põe-se muito frequentemente, em casa, na escola, na sociedade. Afinal, o que é mentir? E qual a fronteira entre a mentira e a imaginação? Entre o faltar à verdade e o mentir? Entre o omitir “certos factos” e o contar a história “à sua maneira”?

Será que as crianças mentem? Será que seres supostamente tão inocentes e ingénuos têm a habilidade, o engenho e a premeditação suficientes para mentir? A pergunta põe-se muito frequentemente, em casa, na escola, na sociedade. Afinal, o que é mentir? E qual a fronteira entre a mentira e a imaginação? Entre o faltar à verdade e o mentir? Entre o omitir “certos factos” e o contar a história “à sua maneira”? 

Às vezes é muito difícil afirmar se uma pessoa está a mentir, porque mentir não é apenas dizer coisas que não são verdadeiras – pressupõe uma atitude deliberada, ostensiva, mais ou menos premeditada, e isso são intenções que só o próprio poderá confirmar. Além disso, mesmo nas situações em que a verdade é falseada, poder-se-á perguntar porque é que isso acontece. Para defesa pessoal? Para evitar consequências desagradáveis? Porque se leu a realidade de maneira diferente? Porque se está convencido que os factos foram exatamente assim, mesmo quando não foram?

O filósofo francês Rousseau apelidava a criança de “bom selvagem”. Será que isso corresponde à verdade, ou apenas na segunda parte da classificação? A história do “rei vai nu” também se baseia no facto de as crianças nunca mentirem, pelo que aquela que denunciara o rei seguramente só poderia estar a falar a verdade. O dia-a-dia, no entanto, encarrega-se de desmentir (cá estou a utilizar palavras relacionadas com o tema, mesmo sem querer) esses conceitos – uma coisa é certa: as crianças por vezes mentem. Todavia, outra coisa também é igualmente verdade: há que ter cuidado em interpretar essas “mentiras”. E cá estamos nós a afirmar verdades que, se calhar, para outras pessoas não serão tão verdadeiras assim, e a enredarmo-nos neste labirinto verbal… Veem como as coisas são?

E mais: qual o grau de ligação entre mentir, em criança, e a aquisição de valores éticos de honestidade e desonestidade? De rigor ou falta dele? De lealdade ou deslealdade? Será que quem mente uma vez, mentirá para sempre? A falta de estudos científicos nesta área ainda nos traz mais dificuldades na análise desta questão.

Mentira por não entender o que se pergunta

Não se tratará propriamente de uma mentira, apenas de um mal-entendido. “Lavaste os dentes?”. “Sim!”. “Não lavaste nada.”. ”Lavei”. “Estás a mentir!”.

Não tinha lavado, mas tinha… ou seja, nesse dia, a que se referia a pergunta dos pais, não tinha, mas tinha lavado na véspera e confundira as coisas. A pergunta correta deveria ter sido: “Lavaste os dentes agora?”.

Os gestos rotineiros são tão habituais que não retemos grande memória deles: responda, Leitor: diga já o que almoçou há três dias. E ontem? 

Por esse motivo, antes de a criança ganhar uma noção do tempo, por exemplo, há que lhe dizer as coisas em linguagem entendível. Não saberá o que são três dias, mas talvez entenda o que é fazer ó-ó três vezes.

Mentira que é fantasia

As crianças pequenas, de quatro, cinco anos, gostam de inventar histórias e fábulas. Faz parte do seu desenvolvimento e é, portanto, normal, dado que há frequentemente uma “zona cinzenta” entre a realidade e a fantasia, e as coisas imaginadas acabam por ser tão reais na sua mente que são capazes de jurar a pés juntos que determinadas coisas se passaram, mesmo coisas tão hipoteticamente impossíveis como ter aparecido um leão no infantário. Embora se devam esclarecer as coisas e tentar fazer ver à criança que provavelmente não se passaram bem assim, não se deve, neste caso, fazer chacota ou rotular a criança abertamente de mentirosa, já que ela está mesmo convencida de que o que está a contar corresponde à verdade. 

Obviamente que, se esta “zona cinzenta” for muito vasta e a confusão entre os factos e a fantasia se tornar constante ou não se esbater com a idade, o caso deverá ser debatido com o médico assistente, porque pode estar associado a problemas do foro psicológico e de fuga à realidade. De qualquer forma, é normal as crianças chegarem longe nesta mistura da realidade e da fantasia – basta lembrar os amigos imaginários com quem falam e que “veem”, que sentam à mesa ou com quem brincam.

Mentira defensiva

Uma criança deste grupo etário já pode mentir para se defender ou para não assumir a responsabilidade do que fez, com medo das consequências. É um tipo de mentira muito vulgar, quase como se negando a verdade ela deixasse de existir. Os pais deverão aproveitar para duas mensagens principais: a primeira é que, como diz o ditado, “mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo”, ou seja, é raro poder levar-se a mentira até às últimas consequências e enganar toda a gente. A segunda mensagem deverá ser que é mais correto e ético ser honesto, verdadeiro e rigoroso, mesmo que isso acarrete efeitos secundários menos bons. Contar exemplos reais e fazer ver que, quando alguém mente para se proteger, há outro alguém que, se calhar, fica acusado de algo ou responsável por alguma ação (sendo inocente) é muito importante, para que a criança ou o jovem vejam que as suas ações também atingem outras pessoas.

Mentira estratégica

Outro tipo de mentira é a mentira para conseguir objetivos pessoais, ou seja, uma forma de estratégia, mais do que defesa – inventar factos para tornear obstáculos e dificuldades que os pais põem a certas atividades. Há que, também neste caso, fazer ver que, por muito que doa, não é mentindo mas sim negociando que se conseguem as coisas, e que a vontade dos pais ou dos adultos responsáveis prevalece sempre no final.

Quando o mentir revela problemas emocionais

Algumas vezes, as crianças contam histórias incríveis, recheadas de pormenores exóticos mas à primeira vista credíveis, um pouco para chamar a atenção dos adultos. Se este comportamento se torna constante, e a verdade e a realidade passam para “enésimo” plano, o facto pode traduzir alguma carência afetiva.

Noutras vezes, a mentira torna-se rotina, como se tratasse de um jogo (agradável e divertido para a criança) e, embora não existam intenções malévolas, pode degenerar num mau hábito, até porque pode parecer “a solução mais fácil” para não ter que dar contas a ninguém. Esta situação, quando se prolonga, causa bastante sofrimento na família e convém ser veiculada ao médico-assistente, para eventual orientação para apoio psicológico.

O que fazer (e não fazer)?

É indiscutível que os pais e os educadores em geral são os principais modelos para as crianças, embora os outros elementos-chave da sociedade (ídolos, personagens televisivos, heróis) também tenham o seu efeito na formação dos valores e da personalidade. Se estes adultos de referência mentem (como tantas vezes acontece, basta relembrar o conhecido “diz que eu não estou”, quando o telefone toca) e se não se dão ao trabalho de esclarecer porque o fizeram (ou de pedir desculpa por o ter feito quando a mentira não tem uma explicação cabal e lógica e quando não foi de alguma forma justificada), a criança habituar-se-á a que, afinal, mentir “não é tão errado como isso”.

Por outro lado, sempre que surge uma situação de mentira intencional por parte da criança, e mesmo tomando em linha de conta as diversas razões que lhe estão na base e das quais mencionei algumas, os pais e educadores deverão ser rigorosos mas compreensivos, e não deixar passar o caso sem debater os aspetos éticos, para lá das consequências imediatas do facto.

Sempre que surge uma situação de mentira intencional por parte da criança, e mesmo tomando em linha de conta as diversas razões que lhe estão na base e das quais mencionei algumas, os pais e educadores deverão ser rigorosos mas compreensivos, e não deixar passar o caso sem debater os aspetos éticos, para lá das consequências imediatas do facto.