Estudo sugere que as crianças pequenas que passam muito tempo a utilizar dispositivos eletrónicos podem ter menos hábitos de leitura em família.
Ana Margarida Marques

As crianças com três anos que passam muito tempo a usar dispositivos eletrónicos – incluindo, tablets, smartphones e televisão – podem estar a ter menos hábitos de leitura em família.

Investigadores alertam que tal comportamento aos três anos traduz-se num aumento da utilização do ecrã aos cinco anos.

São conclusões de um estudo publicado na revista Pediatrics.

Os resultados baseiam-se em inquéritos a mais de 2.400 mães que relataram o tempo de ecrã dos seus filhos e hábitos de leitura aos dois, três e cinco anos de idade.

O estudo apurou que, aos três anos de idade, as crianças que registavam mais tempo de ecrã estavam a ler livros com menos frequência. Essas crianças em idade pré-escolar, por sua vez, passavam geralmente mais tempo em aparelhos digitais aos cinco anos de idade.

Para cada diminuição de dez minutos na leitura diária aos três anos de idade, o tempo de ecrã aos cinco anos de idade aumentou 25 minutos por semana, conclui o estudo. 

Ler com os filhos é essencial na primeira infância

Os resultados não provam que a exposição precoce a dispositivos eletrónicos seja sempre uma preocupação na leitura no caso das crianças de tenra idade, esclarece a principal investigadora Brae Anne McArthur.

E nem todo o tempo de ecrã é igual, acrescenta McArthur, do Alberta Children’s Hospital Research Institute da Universidade de Calgary, no Canadá. Os conteúdos educacionais digitais podem ser até de “alta qualidade”.

“A nossa posição não é que o tempo de ecrã seja sempre negativo”, avança McArthur. 

Mas o tempo do livro é crítico para as crianças pequenas, pois aumenta a sua alfabetização e serve como uma forma de ligação afetiva com os pais.

Assim, é importante saber se os dispositivos eletrónicos podem estar ou não a retirar o tempo de leitura em família.

Conselhos úteis sobre o uso de ecrãs 

A Academia Americana de Pediatria recomenda limites no tempo e conteúdo do ecrã durante a primeira infância. 

Por exemplo, antes dos 18 meses, a utilização do ecrã deve ser limitada a conversas em vídeo com um adulto.

Dos 18 meses aos dois anos, as crianças só devem ver conteúdos educativos, com um adulto a assistir juntamente com elas. E entre os dois e os cinco anos de idade, qualquer tempo não educativo do ecrã deve ser limitado a uma hora por dia ou, nos fins de semana, a três horas.

O presente estudo analisou apenas o tempo gasto em dispositivos eletrónicos, não o conteúdo, ou se os pais acompanhavam as crianças. 

A mensagem não é que “os ecrãs sejam nocivos”, salienta Jenny Radesky, pediatra de desenvolvimento comportamental do Hospital Infantil da Universidade de Michigan C.S. Mott.

“Encontramos tanta variabilidade na forma como os pais os utilizam”, avança Radesky, que escreve um editorial publicado com o estudo.

Mais dicas sobre leitura e televisão  

As recomendações da Academia Americana de Pediatria sobre a leitura são simples. Os pais devem esforçar-se por ler em voz alta para os seus filhos todos os dias, a partir do nascimento. 

Com a televisão, é mais fácil distinguir o conteúdo educacional do entretenimento. 

Com aplicações móveis concebidas para crianças pequenas, explica Radesky, mesmo as referidas como educacionais são muitas vezes “repletas de anúncios”.

Assim, sob a forma de vídeos pop-up ou banners, os anúncios distraem muitas vezes as crianças dos conteúdos educativos, alerta a pediatra.