Paulo Oom
Pediatra

Guia de vacinas da criança

Nov 24, 2020 | Opinião, Paulo Oom | 0 comments

Num guia completo sobre vacinas, Paulo Oom explica aos pais a importância da vacinação, as principais vacinas a administrar e suas reações e os cuidados básicos a seguir.

O aparecimento das vacinas constituiu um dos acontecimentos fundamentais para a diminuição da mortalidade infantil. Em toda a história da humanidade, a única medida que teve um maior impacto que a vacinação foi a distribuição de água potável. Mesmo a descoberta dos antibióticos não teve tanta importância na diminuição das mortes em crianças do que a conseguida pelas vacinas. Muitas doenças mortais ou provocadoras de lesões graves foram controladas desta forma. O melhor exemplo será o da varíola, doença gravíssima que tantas mortes provocou no passado e que, graças à vacinação, foi erradicada do mundo em 1980. Outras doenças igualmente graves, como o sarampo ou a poliomielite, que muitas mortes provocaram e sequelas deixaram em milhares de crianças encontram-se agora também numa fase decisiva, tendo já desaparecido de muitas zonas do globo. A história da vacinação é assim uma verdadeira história de sucesso.

Para a maioria dos pais, vacinar é uma rotina. Desde que a criança nasce e até à adolescência, principalmente no primeiro ano e meio de vida, os pais sabem que os seus filhos vão ser vacinados por diversas vezes. Mas a maioria não sabe o que contém e para que serve cada vacina e muitos ainda olham com desconfiança para a enfermeira, perguntando a si próprios se tal sofrimento valerá a pena. Outros ainda, temem possíveis reações às vacinas e já ouviram mesmo falar de casos em que a criança ficou muito doente após ter sido vacinada. 

Afinal, o que são as vacinas?

No interior do corpo de cada criança existem substâncias, a que os médicos chamam “anticorpos” que são responsáveis pela defesa do organismo contra as infeções. Numa primeira infeção, quando um vírus ou uma bactéria entram no organismo de uma criança, esta produz anticorpos contra esse intruso que o vão combater até ser destruído. Para cada intruso, o organismo produz anticorpos específicos. Após a vitória e destruição do invasor, esses anticorpos são guardados para poderem ser usados mais tarde. Se esse intruso voltar a entrar no organismo, a criança vai usar esses anticorpos para o combater. Mas desta vez, como já tem armas específicas para esse invasor, a defesa é muito mais rápida e eficaz.

Quando nasce, a criança já traz consigo muitos anticorpos, a maioria herdados da sua mãe durante a gravidez. E a criança que é alimentada ao peito recebe também através do leite da sua mãe muitos anticorpos contra um grande número de doenças. Mas essas defesas duram pouco tempo, e por volta dos seis meses de vida, a criança fica dependente dos anticorpos que entretanto já consegue produzir ela mesma.

Uma vacina contém a parte de um vírus ou bactéria que é importante o nosso organismo conhecer para poder produzir anticorpos contra esse vírus ou essa bactéria. Quando é administrada, o organismo da criança reconhece que algo de estranho entrou no seu corpo e produz anticorpos contra ela. Como a vacina só tem uma parte do vírus ou da bactéria, não pode provocar a doença. Mas o corpo da criança produz anticorpos contra aquilo que recebeu na injeção e, se alguma vez esse vírus ou bactéria entrarem no seu corpo, serão rapidamente destruídos sem tempo para provocar qualquer doença.

Com as vacinas, a criança é ensinada a destruir os vírus e bactérias mais importantes e que lhe poderiam causar problemas de saúde mais graves.

Quais as vacinas que as crianças devem fazer?

Em Portugal, existe desde 1965 um calendário de vacinações que todas as crianças devem cumprir e que tem vindo a ser sucessivamente atualizado. Para cada vacina são dadas uma ou mais doses consoante aquilo que os médicos sabem ser necessário para que o organismo da criança fique devidamente ensinado a combater cada uma das infeções. A maioria das vacinas é dada no primeiro ano e meio de vida, para que as defesas possam começar a ser criadas logo desde cedo. 

O programa de vacinação atualmente em vigor em Portugal (ver quadro) inclui as vacinas contra as seguintes doenças:

  • Tuberculose (vacina BCG) – a vacina é apenas feita uma vez, mas apenas em grupos de risco, nomeadamente as crianças que vivem em comunidades com um risco elevado de tuberculose. Protege contra as formas mais graves de tuberculose em bebés.
  • Hepatite B – feita em 3 doses, a primeira logo nos primeiros dias de vida e as restantes aos 2 e 6 meses de idade.
  • Difteria, Tétano e Tosse convulsa – estas vacinas são dadas em conjunto, numa mesma injeção. Formam a chamada “vacina tríplice”.  Esta vacina é dada por cinco vezes, aos 2,4,6, 18 meses e aos 5–6 anos. A vacina do tétano é igualmente dada aos 10 anos e desde aí em períodos bem definidos ao longo de  toda a vida.
  • Hemofilus influenza b (Hib) – é uma das bactérias que podem provocar a meningite. No entanto, esta doença pode também ser provocada por outras bactérias para além do Hemofilus. Esta vacina é dada em quatro doses aos 2, 4, 6 e 18 meses. Existe uma vacina tetravalente, contendo na mesma injeção as vacinas contra a Difteria, Tétano, Tosse convulsa e Hemofilus b (Hib), o que faz com que a criança precise de menos uma injeção. 
  • Poliomielite – Protege contra a poliomielite, uma doença muito grave que provoca paralisia. É dada em quatro doses aos 2,4,6 meses e 5-6 anos. Existe uma vacina tetravalente, contendo na mesma injeção as vacinas contra a Difteria, Tétano, Tosse convulsa e poliomielite. Existe também uma vacina pentavalente, contendo na mesma injeção as vacinas contra a Difteria, Tétano, Tosse convulsa,  Poliomielite e Hemofilus b, e uma vacina hexavalente (a que se junta a hepatite B) o que é muito cómodo, quando se trata de administrar todas estas vacinas em simultâneo.
  • Sarampo, Papeira e Rubéola – estas vacinas são também dadas em conjunto, em duas doses aos 12 meses e 5 anos. 
  • Meningococo C – uma das bactérias que também pode provocar meningite, o que levou à introdução desta vacina no programa. É administrada em apenas uma dose, aos 12 meses.
  • Pneumococo – É a vacina que protege contra diversas estirpes da bactéria pneumococo, responsáveis por várias doenças graves, incluindo meningite e pneumonia. É administrada em três doses, aos 2, 4 e 12 meses.
  • Vírus do papiloma Humano (HPV) – conhecida como a “vacina do colo do útero” porque protege contra a infeção do vírus HPV que, entre outras doenças, é responsável por aquele cancro nas mulheres. É dada às raparigas em duas doses, a partir dos 10 anos.

Programa Nacional de Vacinação (PNV)

IdadeVacinas
Recém nascidoHepatite B
2 mesesHepatite B Hemofilus b (Hib) Difteria Tétano Tosse convulsa Poliomielite Pneumococo
4 mesesHemofilus b (Hib) Difteria Tétano Tosse convulsa Poliomielite Pneumococo
6 mesesHepatite B Hemofilus b (Hib) Difteria Tétano Tosse convulsa Poliomielite
12 mesesSarampo Papeira Rubéola Meningococo C Pneumococo
18 mesesHemofilus b Difteria Tétano Tosse convulsa Poliomielite
5 anosDifteria Tétano Tosse convulsa Poliomielite  Sarampo Papeira Rubéola 
10 anosDifteria e Tétano Vírus Papiloma Humano (HPV) nas raparigas, 2 doses
Aos 25, 45, 65 anos  e depois de 10/10 anosDifteria e Tétano


As vacinas dão muitas reações?

Aqui está aquilo que mais atemoriza os pais. É uma pergunta frequente nos consultórios de Pediatria “Mas essa vacina não é aquela que dá uma reação forte?”. É importante que estejam esclarecidos em relação a este assunto para que não existam medos desnecessários. Aquilo que é importante os pais saberem é que as vacinas que actualmente fazem parte do Programa Nacional de Vacinação são eficazes, seguras e de grande qualidade.

A maioria das vacinas pode dar uma reação ligeira. As reações graves podem ocorrer, mas são muito raras. Mas vejamos as reações mais frequentes:

  • Tuberculose (vacina BCG) – o mais vulgar é, cerca de um mês após a vacinação, surgir um nódulo (por vezes uma ulceração) no local da vacina que cura em dois ou 5 meses deixando apenas uma pequena cicatriz superficial com cerca de 5 mm de diâmetro.
  • Hepatite B – não causa habitualmente reações. Pode surgir uma febre baixa no dia da vacina ou no dia seguinte em 1% a 5% das crianças vacinadas.
  • Difteria, Tétano e Tosse convulsa – são frequentes as reações ligeiras a esta vacina. O mais vulgar é o aparecimento de um nódulo duro e doloroso no local da vacina durante três a cinco dias e por vezes febre que dura menos de 24 horas. Algumas crianças ficam mais irritadas e chorosas até 24 horas após esta vacina.
  • Hemofilus influenza b (Hib) – Não origina habitualmente reações. Pode aparecer uma febre baixa no dia da vacina ou no dia seguinte em 2% a 10% das crianças.
  • Poliomielite – Não origina habitualmente reações.
  • Sarampo, Papeira e Rubéola – pode dar origem ao aparecimento de febre (que pode ser alta) e/ou manchas no corpo que surgem cerca de cinco a doze dias após a vacina e duram habitualmente um a dois dias.
  • Meningococo C – não dá habitualmente reações importantes. No local da injeção pode surgir um edema, eritema ou dor que desaparecem em um ou dois dias. Em raros casos pode surgir uma febre baixa durante 24 horas.
  • Pneumococo – pode dar origem a dor no local da vacina e em alguns casos febre baixa, irritabilidade, diminuição do apetite e alterações do sono. Todas estas reações são habitualmente ligeiras.
  • HPV – provoca alguma dor, rubor e edema no local de injeção em 78% das raparigas vacinadas.

Que cuidados deve ter na altura das vacinas?

É importante cumprir o esquema de vacinações nas datas marcadas, bem como levar o Boletim de Vacinas sempre que for ao centro de saúde, ao hospital ou ao seu pediatra. No dia das vacinas pode ser necessário dar ao seu filho um supositório de paracetamol que alivie as dores e a febre. Se necessário este medicamento pode ser repetido ao fim de seis horas, mas na grande maioria dos casos apenas é necessária uma administração. Se se esquecer de alguma vacina, contacte o seu pediatra. Na maioria dos casos pode e deve fazer de imediato as vacinas em falta, mas existem exceções.

Quando é que a criança não deve fazer as vacinas?

A razão mais frequente para adiar uma ida ao centro de vacinas é a criança se encontrar doente. Mas na maioria dos casos trata-se de excesso de zelo. Se formos muito rigorosos só não deve fazer uma vacina a criança que esteja doente com febre superior a 38 graus e meio. O que acontece na maioria dos casos em que as vacinas são adiadas é que a criança tem apenas uma leve constipação. O bom senso deve prevalecer e é importante saber que, por outro lado, também não há inconveniente num adiamento de alguns dias.

Uma razão importante para evitar determinada vacina é o ter ocorrido uma reação muito grave com uma dose anterior dessa mesma vacina, o que é muito raro. Caso existam dúvidas, discuta o caso com o pediatra do seu filho.

Em muitos casos a vacinação é adiada por razões que não são verdadeiras contraindicações. Na lista podem ver algumas situações que não devem impedir a criança de ser vacinada. 

Algumas falsas contraindicações para as vacinas do Programa Nacional de Vacinação

  • Reações ligeiras a uma dose anterior da vacina
  • Doença ligeira com ou sem febre
  • Terapêutica com antibióticos
  • História anterior de alergias
  • Doenças de pele localizadas
  • Doença crónica cardíaca, pulmonar ou renal
  • Paralisia cerebral
  • Síndrome de Down (trissomia 21)
  • Aleitamento materno
  • História anterior de convulsões

As crianças devem fazer outras vacinas, para além das obrigatórias?

Algumas vacinas não fazem parte do esquema de vacinação, mas existem à venda nas farmácias e os pais têm frequentemente dúvidas sobre a sua utilidade e necessidade (ou não) de administração. Os exemplos mais importantes entre nós são as vacinas para a hepatite A, varicela, rotavírus e as vacinas para outros meningococos (para além do tipo C).

Em conclusão

As vacinas foram um dos grandes avanços da medicina do último século. Graças a elas foi possível diminuir enormemente o aparecimento de algumas das doenças mais graves das crianças. E foi mesmo possível eliminar algumas doenças como a varíola, que deixou de existir graças à vacinação.

As vacinas são seguras, eficazes na grande maioria dos casos, e com muito poucas reações indesejadas. Desta forma, pesando os riscos e os benefícios, não fica qualquer dúvida sobre as vantagens da vacinação.

É importante que os pais, cada vez mais participativos e interessados na saúde dos seus filhos conheçam o que são as vacinas e saibam distinguir as verdades das mentiras que existem sobre este tema.

No futuro muito próximo, vão continuar a surgir novas vacinas para algumas das doenças graves que ainda podem atacar as crianças. É um mundo sempre em evolução que os médicos vão acompanhando com atenção. Em caso de dúvidas, fale com o seu pediatra.

A maioria das vacinas é dada no primeiro ano e meio de vida, para que as defesas possam começar a ser criadas logo desde cedo.