Especialistas falam sobre a função do livro na primeira infância e a importância da interação com a criança através da leitura.
Texto: Ana Margarida Marques

“A barriga da mãe é sem dúvida a nossa pri- meira biblioteca. A nossa casa será provavelmente a segunda, a rua a terceira, a escola a quarta… Cabe a cada família o direito e o privilégio de ordenar, descobrir, reconhecer, tirar proveito, partilhar, usar e abusar das suas bibliotecas”.

As palavras são de Mafalda Milhões, editora, livreira e também autora e ilustradora. A partilha é uma das características do leitor. O leitor lê e relata, ouve e conta, gosta e dá, não gosta, transmite. Se as leituras forem verdadeiramente vividas, facilmente se transformam em boas memórias, em hábitos e rotinas que caracterizam famílias saudáveis e felizes. Uma lengalenga, um conto tradicional, uma rima inesperada, uma música cantarolada ou uma história contada pela avó têm um peso enorme na formação das competências leitoras, refere Mafalda Milhões.

Perspetiva diferente, mas igualmente po- tenciadora do papel da leitura na primeira infância, tem Paula Bravo, terapeuta da fala, que olha para o livro como uma ferramenta essencial para desenvolver a linguagem. É nos primeiros tempos de vida que os pais preparam o gosto dos filhos pela leitura, argumenta: “As crianças gostam que lhes leiam histórias”. É importante que oiça e partilhe histórias à medida que vai crescendo.

Por onde começar

Existem opções diversas de livros a cada etapa do desenvolvimento, em termos de materiais, de fotografifia e de imagens simples (animais, objetos de uso diário…); há livros de imagens com ações (pessoas e animais a comer, dormir…), de histórias simples ou de enredos cada vez mais complexos.

“A partir dos seis meses deve-se permitir que o bebé explore livros adequados à sua idade”, diz Paula Bravo.

Dos zero aos seis meses

Nos primeiros seis meses, aconselham-se especialmente os livros de cartão grosso, de pano ou plastificados, com páginas que devem ser fáceis de virar. É a altura em que a criança fica a observar os livros e que expressa especial interesse por imagens coloridas e grandes e por caras de pessoas. Leva os livros à boca e estabelece um primeiro contacto com muitos objetos.

Dos 12 aos 24 meses

Entre os 12 aos 24 meses, o bebé já se senta sozinho e consegue agarrar e transportar o livro. Segura-o na posição correta, virado para cima. Entrega o livro ao adulto para que o leia. Os livros mais indicados são coloridos, com imagens ou fotografias que incluam outras crianças, brinquedos e objetos em situações familiares, como dormir, comer e brincar. Nesta fase, os livros devem ter poucas palavras.

A partir dos 24 meses

A criança aprende a segurar bem o livro e a virar as páginas entre os dois e os três anos. Já procura para a frente e para trás as ilustrações que conhece e de que mais gosta. Relaciona o texto com a imagem. Diz frases completas de cor. Os livros mais adequados continuam a ser os coloridos, com páginas de cartão, mas também com páginas de papel. São indicadas as histórias sobre crianças e famílias e com temas como amigos, ali- mentos, animais, carros e comboios.

Ginástica mental e física

Mafalda Milhões refere ainda: “Na minha opinião, o livro é um brinquedo quando é usado como tal. Mas não posso deixar de afirmar com toda a certeza que o livro não é um brinquedo quando o leitor o reconhece como um livro”.

Em ambos os casos, o bebé recebe estímulos a diversos níveis, aprende a utilizar e familiariza-se com o livro, continua a editora e livreira, portanto vai criar relações que atuam no sentido de o exercitar enquanto leitor.

O livro é uma espécie de ginástica intelectual e física que permite aos leitores crescer e aceitar os livros na sua vida desde cedo de uma forma natural.

Mafalda Milhões

“O livro é uma espécie de ginástica intelectual e física que permite aos leitores crescer e aceitar os livros na sua vida desde cedo de uma forma natural”, adicionando com o entusiasmo próprio de quem tem uma grande paixão por um mundo com histórias dentro: “O que torna estas experiências mais ou menos intensas é a atitude dos pais que acompanham os leitores desde o dia em que o bebé era uma vontade, um sonho ou um desejo.”

Os pais podem transformar-se em autênticos contadores de histórias. Saiba como captar a atenção da criança enquanto lhe conta uma história: siga as orientações do Plano Nacional de Leitura.