A primeira infância é um período crítico para aprender a controlar comportamentos agressivos. Saiba sobre a importância de ajudar a criança a gerir as suas emoções.
Texto: Teresa Abreu | Edição: Ana Margarida Marques

A agressividade pode ter diversas interpretações. Os pais devem saber que a sua conduta no pré-natal (cuidados, alimentação, stress) e na primeira infância influencia o modo como o cérebro se desenvolve. E que as crianças são mais capazes de controlar a agressividade se as suas estruturas e funções cerebrais estão adequadamente desenvolvidas. Alicia Fernandez (1992), psicopedagoga, compreende a agressividade como parte do impulso que está intimamente ligado ao aprender e à capacidade criativa e simbólica da criança; já a agressão, pelo contrário, acaba por dificultar e destruir o processo de pensar. Como refere Winnicott, “é necessário que o adulto entenda, aceite e valorize que a criança necessita derrubar a torre de blocos de montar para que ela possa valorizar a sua própria capacidade de construir a torre de blocos.” Winnicott (1982), pediatra e psicanalista, afirma que a agressividade se inicia antes do nascimento e está presente nos movimentos tónicos da criança, pois esses movimentos não são intencionais, tampouco têm uma conotação de conduta agressiva. Esses movimentos auxiliam o bebé na descoberta de um mundo que não é o seu e, consequentemente, iniciam o estabelecimento de uma relação com o mundo externo. Portanto, a agressividade pode estar ligada a uma diferenciação do que é do “eu” do bebé e do que não é.

Conquista da autonomia 
Para os pediatras T. B. Brazelton e Joshua Sparrow, a agressividade não é apenas inevitável como necessária. As causas para as crises das crianças são várias e as fúrias tornam-se menos preocupantes caso os pais as consigam antecipar e compreender, de forma a ajudar os filhos a contorná-las. “Em algumas fases do desenvolvimento, a agressividade é até uma forma de a criança estabelecer a sua independência. Os pais têm de compreender este objetivo e tê-lo em consideração para confortar a criança, estabelecendo, ao mesmo tempo, limites firmes para que a criança cresça forte e independente, mas também segura”, referem os autores. Nesse sentido, os pais têm obviamente que ser capazes de contornar a sua própria fúria.

Brincar com os filhos
A primeira infância é um período crítico para aprender a controlar comportamentos agressivos. Brincar com os filhos e encorajar o brincar pode ajudar as crianças a desenvolver capacidades que as ajudam a controlar os impulsos agressivos e a responder mais adequadamente às reações dos pares na interação. A interdição é uma estrutura afetiva, de que as crianças necessitam para desenvolver um envelope sensorial harmonioso para aceder à autonomia e não se portarem como tiranos domésticos. Espera-se que os pais tenham em si a capacidade de saber frustrar, pôr limites e ser tolerante, ao mesmo tempo.

Brincar com os filhos e encorajar o brincar pode ajudar as crianças a desenvolver capacidades que as ajudam a controlar os impulsos agressivos e a responder mais adequadamente às reações dos pares na interação.”

Atenção às respostas
Na socialização da criança, respostas inadequadas dos cuidadores a desequilíbrios emocionais e comportamentais em crianças pequenas parecem aumentar o risco de problemas posteriores de agressividade. Respostas inadequadas incluem respostas insuficientes (reações passivas ou desvinculadas) e respostas exageradas (reações ríspidas). Crianças que têm pais com valores antissociais ou com dificuldade em regular os seus próprios impulsos agressivos prestam pouca atenção às outras, que têm problemas de linguagem, hiperatividade ou impulsividade, têm mais dificuldades, maior isolamento e rejeição. Tudo indica que nos casos de agressão que ocorrem na sociedade há uma falha básica da família no seu papel contentor dos impulsos agressivos.

Contexto social é decisivo
Desde muito cedo na vida, os contextos sociais permitem que a criança desenvolva estratégias que aumentam a sua capacidade de controlo emocional, e servem como alternativas adaptativas à agressão. Na verdade pode-se argumentar que a maioria das crianças não desenvolve problemas de agressividade porque se deparam com oportunidades de vivenciar intensas emoções negativas quando bebés, envolvem-se em agressões nos primeiros anos de vida, porém são desencorajadas de vários modos a repetir comportamentos inaceitáveis. Quando obstáculos importantes impedem que a criança desenvolva tais estratégias, ela tende a um funcionamento emocional e comportamental debilitado, resultando em deficits consideráveis nas suas relações sociais com os adultos cuidadores e com os seus pares.

Agressividade a partir dos 4-5 anos
O desenvolvimento da agressividade na infância, nomeadamente a capacidade de a integrar ou usar sob controlo, está associado a uma multiplicidade de fatores, tais como práticas parentais inadequadas ou baixo estatuto socioeconómico. Além disso, muitos fatores de origem neurológica, fisiológica e genética, que são associados ao desenvolvimento da agressão, podem ser remetidos à primeira infância, e até mesmo a períodos anteriores. De notar que a agressividade para além dos 4-5 anos associa-se a problemas relacionais na adolescência com os pares e os adultos, dificuldades académicas, depressão e delinquência.